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por Oldfox, em 25.02.16

O Evangelho segundo Marilynne Robinson

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 O Evangelho segundo Marilynne Robinson

 

"Lila" é o quarto romance da escritora americana Marilynne Robinson e o mais recente da trilogia - que compreende "Gilead" (2004) e "Home", (2008) - onde a autora explora a relação de amizade que une profundamente dois pastores evangélicos – John Ames e Jack Boughton – e as suas respectivas famílias, cujos destinos estão intimamente ligados, no ambiente fechado das difíceis relações parentais e filiais, nos desgostos e alegrias que acarretam. Tanto a acção, centrada numa pequena cidade imaginária no noroeste dos Estados Unidos – não muito diferente da terra natal de Robinson - como as personagens transitam de livro para livro sem ordem cronológica. Na realidade, "Lila" é uma prequela de "Gilead" e reencontramos, aqui, John Ames que, com toda a sua bonomia e amor pela vida, conhece bem a dor da perda: a primeira mulher e filha morreram há muito e a sua vida solitária, dedicada aos membros da sua congregação, segue o curso monótono dos dias, até que, já com 67 anos, é irresistivelmente atraído por Lila, uma jovem que vive sozinha numa cabana em ruínas e, que, tal como ele, é uma "especialista" em solidão e despojamento.

Lila tinha apenas cinco anos quando Doll, uma mulher com uma mancha no rosto, uma vagabunda corajosa e livre – e, também, uma assassina – a encontrou num alpendre à chuva e pegou nela, levando-a para longe da família que a ignorava e negligenciava. Doll protegeu sempre Lila, ferozmente, e ambas calcorreiam a América, faça chuva ou sol, à deriva e ao sabor dos ventos, juntando-se esporadicamente ao bando de Doane e Arthur, uma espécie de troupe de saltimbancos que só se detém quando é necessário. O cenário, tão dramaticamente capturado nas fotografias de Walker Evans e de Dorothea Lange, é o da grande depressão na América, com os fantasmas da fome, do frio e da doença sempre a persegui-los. Doll e Lila, duas almas gémeas, duas sombras na paisagem, ligadas pelo desejo da fuga, da liberdade e da solidão, são como ecos das personagens do primeiro e fulgurante romance de Robinson, "Housekeeping" (Laços de Família).

Depois do medo, vencidas as resistências, Lila, que se sabe rude e ignorante mas que quer conhecer o significado das palavras – copia sozinha e laboriosamente, trechos da Bíblia – casa com Ames, não sem este a ter baptizado. E esse baptismo à beira rio, com a água a escorrer sobre Lila e um peixe-gato a debater-se, agonizando na erva, ao sol, é uma das cenas mais comoventes do romance, aquela em que o conflito brutal que se desenrola permanentemente na cabeça de Lila parece, temporariamente, apaziguado. A sua permanente desconfiança em relação a uma possível felicidade – isto é, amor, conforto, protecção, companheirismo – é momentaneamente esquecida ao sentir a mão de Ames pousada na sua cabeça, nessa bênção que "queima" e também a faz chorar. A intimidade, pela qual tanto anseia e que rejeita com o mesmo grau de ferocidade, provoca nela um misto de profunda exaltação e cruel sofrimento, uma vez que, ao abdicar da solidão, sabe que está a aceitar algo que desconhece. A inquietação de Lila não acaba com o casamento – tem sempre dinheiro guardado para apanhar a camioneta e fugir – mas a maternidade transforma-a e será a esse filho que Ames escreve, no fim da vida, a longa carta que surge em "Gilead".

Há qualquer coisa de ferino e de primordial na personagem de Lila, reminiscente do ideal de Rousseau, cujo mito do "bom selvagem" vai ao encontro da concepção de que o contacto estreito com a natureza funciona como antídoto para uma sociedade em desagregamento. A diferença reside no facto de a "inocência" de Lila ser permanentemente desafiada, tanto pelo seu próprio intelecto como pelo confronto manso, mas determinado, com os outros. A sua luta silenciosa e interior tem a dimensão épica própria das heroínas que vencem as dificuldades de uma infância de abandono e privação, de uma juventude desenraizada e perigosa e de uma idade adulta na qual permanece o rasto de profundos danos emocionais.  

Robinson é claramente influenciada por William Faulkner que recorreu profusamente à Bíblia, na sua obra, acentuando tanto o lado luminoso, redentor e inspirador como os aspectos mais sombrios, de castigo e perdição. (Repare-se que Gilead funciona como a Yoknapatawpha de Faulkner, um lugar para onde converge e onde se centra toda a acção.)

"Lila" é uma obra sobre a redenção e sobre os desertos ou caminhos de espinhos que é necessário atravessar para alcançar a suprema felicidade, se por um acaso, ela existir, algures. Robinson é incomparável na descrição das maravilhas do mundo imanente – em cada detalhe da matéria, da luz, das texturas, dos movimentos – enaltecendo a sua insuperável beleza perversamente tingida por um perene sentimento de luto e de perda.

"Lila" é, ainda, um romance com uma prosa inspirada e luminosa de cariz profundamente cristão – referências bíblicas (aqui, ao Livro de Ezequiel), a luta entre o bem e o Mal, entre a luz e as trevas, entre a inocência e a corrupção, entre o amor e o ódio, entre a solidão e a pertença – que nos remete claramente para o universo violento e severo da católica Flannery O'Connor, embora Robinson não faça uso da tremenda e incomparável comicidade negra e fulgurante, que caracteriza a obra da escritora sulista.

 

Lila, Marilynne Robinson, tradução de Maria do Carmo Figueira, editorial Presença.

Artigo publicado no jornal Público, Lisboa.

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publicado às 12:39


por Oldfox, em 10.12.15

Alexandre o Grande por Laurent Gaudé em "A Última Viagem"

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Todos os caminhos vão dar a Babilónia

 

Alexandre o Grande, o visionário que decidiu conquistar o mundo, modelo para Genghis Khan e Napoleão, entre outros de sinistra memória, foi um fenómeno de direito próprio. Aos vinte anos, quando se sentou no trono da Macedónia, era já um prodígio nas artes da guerra e um astuto pensador, em parte graças aos ensinamentos do seu mestre, Aristóteles. Entre 334 e 324 a.C. , o seu vigoroso exército avançou para Leste como uma potente e bem oleada máquina, varreu todos os oponentes, arrasou cidades, saqueou e pilhou, chegando tão longe quanto o subcontinente indiano, onde as tropas se recusaram a avançar mais. Por alturas do seu trigésimo aniversário, Alexandre, político implacável, estratega brilhante, amante de mulheres e de homens com igual fervor, generoso em extremo e ferozmente cruel – executou inúmeros amigos e inimigos – reinava como senhor absoluto num Império que aproximou a Europa da Ásia e transformou a História para sempre. Na faustosa cidade persa de Susa, em 324 a.C., ordenou o casamento em massa de macedónios com princesas persas e o próprio Alexandre casou com Stateira, a filha do rei Darius III, tendo oferecido a irmã desta, Dripetis, ao seu amigo mais próximo, Hefestião. Esta manobra diplomática suscitou críticas por parte dos que achavam que Alexandre - que adoptou também o título oriental de "rei dos reis" - se estava a tornar demasiado indulgente e sensível ao luxo e à licenciosidade. Os textos da época e a "biografia" de Plutarco apontam para um gosto cada vez mais acentuado pelo hedonismo e para um afrouxamento dos instintos guerreiros. A verdade é que Alexandre, aos trinta e dois anos, no apogeu da sua glória, morreu subitamente em Babilónia. 

É a partir daqui, mais exactamente durante um banquete orgiástico no palácio de Nabucodonosor, que se desenrola a narrativa de Laurent Gaudé (n.1972, Paris). O poderoso Alexandre, que nunca perdera uma batalha, que sobrevivera a todas as provações e ferimentos, que se considera invencível, (um semi-deus como o seu herói, Aquiles), tomba, preso de dores excruciantes, como se atingido por um raio, enquanto a música toca e todos riem, dançam e bebem. Alexandre é levado para os seus aposentos e agoniza, à medida que a notícia se espalha e, dos quatro cantos do Império, a multidão converge para Babilónia, velando e suspirando, à espera do trágico desenlace.

Alexandre "não sabe morrer", assim se queixa a voz fantasmagórica que persegue e ecoa pelos corredores do palácio. O grande senhor da guerra não cai, como o herói da Ilíada, no campo sagrado da batalha mas definha em febres pestíferas e em delírios enquanto as carpideiras, à sua cabeceira, se revezam para lhe auscultar o coração e se aprontam para o chorar mal ele exale o último sopro.

Uma histeria colectiva – " de que viveremos, depois de ele morrer?" – percorre os súbditos, os generais, os amigos de infância outrora fiéis, que imediatamente se dilaceram entre si, como abutres disputando os restos do seu senhor. A história do cortejo funerário que se agiganta para levar os restos de Alexandre de volta a "casa", para que a urna seja depositada nas mãos da mãe, Olímpia, e se desloca ao longo de dois anos sem nunca chegar à Macedónia, é recriado vividamente por Gaudé.

"A Última Viagem" (" Pour Seul Cortège", no original) é um exercício sobre o poder e a morte, numa linguagem ricamente exuberante, talhada a golpes de cutelo e onde não existem longas meditações filosóficas nem reflexões conflituosas mas sim cenas sucessivas que alternam entre a calma e o turbilhão, num ritmo encantatório que serve à perfeição o carácter mítico (e místico) que envolve esta estranha travessia. O estribilho entoado pela multidão - "a quem pertences, Alexandre?" - serve de mote para esta bizarra procissão, que vira as costas, funestamente, ao sol nascente, ladeando o corpo embalsamado e enclausurado no seu pesado casulo de oiro maciço, pungentemente chorado pelas carpideiras, disputado por senhores da guerra e desviado como um troféu. Gaudé convoca poderosamente os sentidos numa toada de diferentes vozes que vão descrevendo as penosas marchas, as incursões dos exércitos rivais, o ruído tremendo das armas, o tombar dos cavalos, os gritos de agonia e o cheiro a sangue e a cadáveres. Da glória imperial, da doçura dos cânticos nos jardins de Babilónia, dos tesouros acumulados na campanha, vai restando cada vez menos, como faz notar a leal Dripetis, figura principal e trágica musa desta história.

Não será demais recordar que Laurent Gaudé é um homem do Teatro, algo que sobressai na sua prosa, ao compor "quadros" dramáticos referentes a cada situação. E se o autor mistura aventureiros e bandidos no famoso "O Sol dos Scorta" (prémio Goncourt, 2004), em que a acção acompanha a saga de uma família "amaldiçoada", aqui, retoma a ideia dos grandes feitos e das grandes misérias, nos destinos de seres de excepção. Um adivinho indiano predisse que Alexandre não deveria entrar em Babilónia e outro homem sábio afirmou que o lugar onde o seu corpo descansasse seria o "mais próspero do universo". Ptolomeu, seu companheiro de armas, enterrou-o em Alexandria, para fazer cumprir a profecia, mas os saques que se sucederam fizeram com que os restos mortais do maior guerreiro de todos os tempos desaparecessem sem deixar rasto. A saga de Alexandre, um tema infinito, tornou-se mais duradoura do que a glória efémera do senhor do mundo, com o seu cavalo Bucéfalo e a fronte coroada de oiro.  

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publicado às 13:02


por Oldfox, em 05.11.15

O LIVRO NEGRO de Hilary Mantel

Rolem as Cabeças

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 Thomas Cromwell pintado por Hans Holbein, 1532 - 34

Está sempre muito frio na Inglaterra de Hilary Mantel e não há lareiras, peles ou jóias que amenizem o calafrio que percorre os corpos dos seus protagonistas neste “O Livro Negro”, sequela de “Wolf Hall”, (também agraciado com um Booker) com Thomas Cromwell como epicentro de um furacão que varreu um reino em rápida mudança religiosa, política e social.

E embora a acção deste romance comece no Verão, não há nada de caloroso na “orgia de desmembramento” observada por Cromwell e pelos seus nobres convidados, durante a caçada com falcões que Mantel esgrime habilmente, como metáfora dos acontecimentos que se seguem. Ao longo do livro, os seres humanos imitarão as aves de rapina, predadores que não temem, não perdoam e não hesitam quando se lançam sobre as suas presas, embora voltem a poisar, com relutância, no punho engalanado e protegido dos seus amos e senhores.

Mas a forma como Thomas, filho de um ferrador cervejeiro, se elevou à categoria de braço direito do rei Henrique VIII, para quem faz o trabalho sujo, mudando destinos com a facilidade de um prestidigitador, é algo que, por detrás das suas costas, as famílias da antiga nobreza comentam, recusam-se a compreender e muito menos, a aceitar. Cromwell é astuto, maquiavélico e prudente. Ele vigia, observa e analisa, quer uma Inglaterra “moderna”, abastada, bem alimentada, livre de superstições e de mediocridade. Sabe bem o que é pertencer a um povo assustado e fraco que sofre a fome e o frio, dividido pela fé, volátil e caprichoso, que se junta em matilha para presenciar as execuções daqueles que, pouco tempo antes, tinha aplaudido com fervor. Ele, Cromwell, correu mundo, aprendeu, serviu os príncipes europeus, estudou-lhes os hábitos, as manhas. (Um pouco antes do torneio que marca o ponto crucial do livro, quando Henrique sofre um acidente, Cromwell recorda a sua amizade de passagem com um português “especialista em justas” que lhe ensina todos os truques numa noite, em Veneza)..

Thomas deve tudo ao rei: a sua fortuna crescente, as suas casas, o título (que recusa), a influência, o poder. No entanto, constata ele no segredo da sua mente tortuosa, Henrique também lhe deve tudo: o afastamento da primeira mulher, Catarina de Aragão, a anulação do primeiro casamento, a força para se separar de Roma, as complicadas manobras diplomáticas, o apaziguamento das velhas famílias aristocráticas, a organização das suas casas e do seu reino, a forma implacável como retira aos papistas as suas riquezas que vão directamente para os cofres da coroa; deve-lhe, ainda, o troféu máximo, essa Ana Bolena, angulosa e felina, perseguida durante anos e finalmente instalada no lugar de rainha. Mas nem só de luxúria vive um rei. E um soberano como Henrique quer que a “bruxa” Bolena que o enfeitiçou, cumpra a sua parte, ou seja, produza um filho varão e não uma sucessão de abortos, complicações e (apenas) mais uma rapariga, Elizabeth. Como se não bastassem os problemas com Mary, a filha de Catarina! Não tarda muito para que Cromwell se dê conta da distracção do seu monarca – ele que lhe antecipa os pensamentos – e do olhar que este pousa com frequência na diminuta figura de Jane Seymour, aia de Catarina e depois de Ana Bolena, figura familiar no círculo da Corte, filha desse Sir John de Wolf Hall que tanto se destacou ao serviço de Henrique VII e do próprio Henrique VIII.

É altura de colocar a questão: o que distingue o relato desta velha história pela mão de Hilary Mantel, uma vez que a bibliografia relativa a este período da História inglesa é extensíssima? (Ah, esses Tudor! Será que nunca nos cansamos das suas vidas atribuladas, das suas traições e vinganças, das sua intrigas e mortes violentas? Desabafa Margaret Atwood no início da sua recensão no jornal The Guardian). Sim, como conseguiu Mantel acrescentar um punhado de novas emoções a esta popular e antiga tragédia?

Há, evidentemente, o ritmo da narrativa: Hilary Mantel não tem pressa. As palavras revolteiam e alongam-se em torno dos acontecimentos, à semelhança dos falcões de Cromwell e tal como o próprio vai urdindo as suas teias, no jogo complicado de agradar ao seu rei, de cumprir com as suas vontades – que o próprio Cromwell tem de adivinhar e até induzir – e de contornar dificuldades. Porque o esplendor do soberano, a luz que lança sobre os seus súbditos e sobre o seu reino pode apagar-se e transformar-se em negrume, à mais pequena contrariedade. Henrique, o homem letrado, o poeta sensível, o ágil dançarino e valoroso amante vai-se transformando, perante os nossos olhos, num homem cada vez mais velho, brutal, imprevisível e caprichoso. O humor de Henrique é volátil e tanto ofusca com a sua alegria e bonomia quanto aterroriza com as suas cóleras. E Mantel é intensamente hábil na forma como descreve com a mesma intensidade poderosa, os momentos mais líricos e idílicos e os mais sangrentos e violentos, à semelhança do pintor da Reforma, Hans Holbein, o Jovem que soube como ninguém fixar os traços dos principais actores no palco desse dramático tempo.

“O Livro Negro” é uma obra agudamente visual, em que, para além das paisagens poderosas, dos detalhes do guarda-roupa, das casas e dos rostos, as cores e o seu significado invadem as páginas: há, evidentemente, o vermelho do sangue, que contamina tudo e tinge o branco da neve que cobre ruas e estradas, permanentemente sulcadas pelos agentes e espiões de Cromwell, do rei, das rainhas, dos embaixadores. O amarelo solar do vestido sumptuoso de Ana Bolena, que ela enverga para mostrar a sua alegria no dia em que festeja a morte de Catarina, representa uma das muitas atitudes de desafio que ditarão o seu fim e, finalmente, o negro do céu de tempestade, das masmorras da Torre e do “livro” do título (onde estão assentes todas as tarefas e movimentos no espaço fechado da Corte), caracteriza a ausência de luz que assombra as mentes dos protagonistas, enredados nas suas danças mortíferas, enquanto o cerco se aperta em torno da rainha, como um tenaz punho de ferro manobrado pelos múltiplos, novos e velhos, inimigos dos Bolena. É claro que Cromwell, em sua própria defesa, pode gabar-se de ter contribuído para a paz no reino, esse estado tão difícil de alcançar quando inimigos domésticos e estrangeiros se encontram sempre à espreita, na expectativa de uma eventual fraqueza. Por isso, “O Livro Negro” é, também, um tratado sobre política, sobre o difícil jogo de xadrez das infindáveis concessões, ameaças e negociações necessárias para a estabilidade. Enquanto Cromwell se afadiga, se desdobra em múltiplos afazeres, conspira e manipula, a orgulhosa cabeça de Ana Bolena está cada vez mais próxima do cepo do carrasco e Jane Seymour caminha serenamente para o trono, à medida que Henrique vai ganhando peso e perdendo a saúde e a energia dos seus vinte anos, tornando-se cada vez mais brutal, irracional e sedento de sangue.

Nós, que já sabemos o desfecho da História, maravilhamo-nos perante a ironia que os seus intervenientes nunca puderam desfrutar. A pequena, pudica e roliça Jane Seymour sentou-se no trono e deu ao rei um varão, mas morreu por complicações do parto, embora tenha sido a única a ter a honra de ser sepultada ao lado de Henrique. O seu filho, Eduardo VI, nunca chegou verdadeiramente a governar e foi a filha da “prostituta “ Bolena que, afinal, se tornou uma das rainhas mais célebres de toda a História e certamente a mais poderosa de Inglaterra. Cromwell subiu tão alto que sofreu uma vertiginosa queda e nenhum dos seus famosos expedientes o salvaram de um destino inexorável. Os murmúrios e as confidências, as indiscrições e as intrigas que ele tão bem soube engendrar viraram-se contra ele, no final, e a narrativa de Mantel ilustra bem essa sensação de perder o controle e de deslizar para a perdição quando a vontade se torna demasiado arbitrária e o poder absoluto corrompe sem remissão. Mas essa parte está ainda por contar no próximo e esperado “The Mirror and the Light” que completará a trilogia. Quedemo-nos no final de “O Livro Negro” (“Bring up the Bodies” no original) com o poderoso Secretário, quando ele pode ainda desfrutar o prazer de ver as cabeças dos seus principais inimigos a rolar no cadafalso.

 

O Livro Negro, Hilary Mantel, tradução de Miguel Freitas da Costa, ed. Civilização

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publicado às 14:27


por Oldfox, em 10.09.15

AS LUZES de LEONOR

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Mais Brilhante que Mil Sóis.

 

Primeiro a História: Maria Teresa Horta levou treze anos a pesquisar, a coligir informação e a escrever “As Luzes de Leonor”, uma monumental e arrebatada obra que gira em torno da vida e da personalidade de Leonor de Almeida, Condessa de Oyenhausen e Marquesa de Alorna, figura maior da nossa História e da nossa Cultura. Leonor foi encerrada aos oito anos, juntamente com a irmã e a mãe, no Convento de Chelas e o pai, também preso a mando do Marquês de Pombal no seguimento do processo dos Távora, passou anos sem ver a família. A avó, Marquesa de Távora, foi executada, tal como outros membros da família, amigos e até criados. Leonor só saiu de Chelas dezoito anos mais tarde, após a morte de D. José, quando D. Maria – que mais tarde será sua madrinha de casamento – devolveu a liberdade aos presos políticos. Leonor aproveitou os anos de reclusão para estudar, para fortalecer o carácter, para escrever poesia. Desde cedo atraiu inúmeros admiradores, fascinados com a sua erudição, beleza e independência de espírito. Recebia no convento ( à grade) poetas e pensadores –  Correia Garção, Filinto Elíseo (que lhe deu o nome de Alcipe), Joana Isabel Forjaz, Teresa de Mello Breyner – saiu em liberdade aos 27 anos, casou-se, teve filhos, atravessou a Europa de lés a lés, privou com soberanos e soberanas, foi amada e cortejada por homens e mulheres, aconselhou e recebeu as confidências de figuras destacadas do seu tempo, levou a cabo delicadas missões diplomáticas, apaixonou-se, escreveu; assistiu à Revolução francesa e ao avanço de Napoleão sobre a Europa, experimentou o exílio, regressou a Portugal; Camilo Castelo Branco não escondeu a admiração por ela, Francisco Joaquim Bingre recordou a “grande Filósofa e grande poetisa lírica, mulher de abalizados talentos e de óptimas ideias liberais, cuja casa frequentei algumas vezes com outros poetas do meu tempo.”

Maria Teresa Horta apodera-se desta figura estonteante e não será por acaso que começa a sua obra com uma citação de Virgínia Woolf, excerto de uma carta que a escritora britânica escreveu à sua musa Vita Sackville-West, a propósito do romance “Orlando. Uma Biografia”. Tal como o herói/heroína da tonitruante e encantatória saga de Woolf, também Leonor, pela mão da autora, atravessa o tempo, o espaço, os géneros e as ideias, os sentimentos e as razões, as tendências e as modas, para nos arrastar na vertigem da sua existência, fresca e audaz, sábia e veemente. A Ciência ensinou-nos que a fita caprichosa do nosso ADN se desenrola, geração após geração, numa alucinante viagem que continua ad infinitum e Leonor de Almeida está bem viva nestas páginas, resgatada do tempo e do esquecimento pela sua descendente, a autora, que não se limita a descrever factos mas parece, isso sim, ter ocupado o espaço físico e mental da sua ilustre parente. Acompanhamo-la, e a todos que em torno dela gravitam, desde a infância até à idade avançada, seguimo-la nos estudos, nas múltiplas leitura, nas viagens atribuladas, no êxtase dos prazeres carnais, nos esforços diplomáticos, nos dramas familiares, no fulgor dos salões e das cortes (Viena, Paris, Londres, Lisboa). Ouvimos os cascos dos cavalos, o roçagar dos vestidos, os suspiros apaixonados, os gritos nos partos, os murmúrios conspiratórios; chegam-nos com intensidade os odores dos corpos, dos cozinhados, das ruas, das estradas, dos perfumes, das velas, das alcovas. E observamos a evolução e construção de uma personalidade única, livre, independente de espírito, resistente à adversidade, filha, mãe, mulher, amante, poeta, intelectual. Maria Teresa Horta vai desenrolando a narrativa em elipses, sem particular rigor cronológico ( a ligação de Leonor com a avó, a Marquesa de Távora aparece, pontualmente em entradas com os títulos “Raízes” e “Memória”), voltando sempre a Leonor, ( o íman) recriando com total abandono e franqueza os arroubos das “coisas da carne”, desse “invólucro mortal” de que fala Shakespeare, que englobam as delícias do erotismo e os incómodos muito humanos dos fluidos e excreções.

Leonor, Marquesa de Alorna, formou o seu espírito e a sua vontade na leitura dos Clássicos, nos ensinamentos de Rousseau, Voltaire, Diderot, Espinoza, Locke, Bayle e Newton, foi testemunha privilegiada e interessada do fim de uma era e do nascimento do mundo moderno, com as luzes da Razão a esmorecerem no negrume do Terror e no saque da Europa, por Napoleão. A ascensão do Romantismo – que tão prejudicial foi para as mulheres - levou-a a apreciar Goethe e Schiller mas não chegou a contaminá-la nos seus aspectos mais negativos.

Com “As Luzes de Leonor”, Maria Teresa Horta constrói uma obra grandiosa, na qual as figuras históricas (por exemplo, quão diferente é “esta” Carlota Joaquina da imagem que Raul Brandão lhe atribui, em “El-Rei Junot”) se cruzam com as que emergem da imaginação da escritora, em cenários delicadamente pormenorizados, em ambientes profusamente documentados, em emoções e sentimentos que só uma grande escritora sabe como recriar.   

Para além do aspecto formal mais marcante desta obra, isto é, a subversão total dos géneros tradicionais - romance histórico, biografia, memórias, poesia, género epistolar (tão característico do século XVIII) até autobiografia – há, em toda a narrativa, uma contínua tensão entre contrários, entre masculino e feminino, entre razão e  emoção, entre verdade e embuste, entre vida e morte, entre liberdade e reclusão, entre atracção e repulsa, entre luxúria e castidade, entre o amor-paixão e o amor-amizade. Leonor ergue-se, magnífica e majestosa, do vórtice destes conflitos mortais, desafiando o despotismo patriarcal consubstanciado em figuras como Sebastião de Carvalho e Melo e Pina Manique, o primeiro, apostado em ser um homem das “Luzes” que usa a razão para reconstruir um reino mas que mergulha nas trevas da barbárie com a execução dos Távora e com as suas maquinações e Pina Manique, o sinistro intendente da Polícia e espião que persegue Leonor até à morte. Esta, ao contrário dos seus inimigos, (“Não me apaziguo” escreve ela no Diário), embora “encarcerada” – num convento, num corpo de mulher, em roupagens femininas – experimenta sem temor o excesso das suas “luzes” no desejo e na vontade.  

“As Luzes de Leonor” é, evidentemente um livro “feminista” no sentido em que Maria Teresa Horta - uma escritora, poeta e pensadora sempre atenta - revela a importância de Leonor e de outras mulheres mantidas na obscuridade. Mas é, essencialmente, uma obra universal que transcende géneros, fronteiras, correntes ou movimentos literários. É um livro sobre Portugal e sobre a nossa cultura, sobre a Europa e sobre os abalos da História. É, ainda, uma lição de bem escrever e um relato provocante e ousado que levanta questões de agora e de todos os tempos: como resistir à tirania? Qual a importância da educação, da cultura, do exercício do pensamento? De que modo se poderá (ou não) conciliar a emoção com a razão? De que formas se reveste o amor em todas as idades? Como vencer as barreiras da moral instituída, das diferenças sociais e culturais, das limitações de género? Como ser-se mulher ( ou homem) em toda a plenitude?

As Luzes de Leonor, Maria Teresa Horta, Ed. Dom Quixote. 

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publicado às 12:13


por Oldfox, em 29.04.15

Black is Beautiful - a Arte de Katherine Dunham

 

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Black is Beautiful.

A Grande Dama Negra da Dança

 

No dia 22 de Junho de 1909 nascia em Chicago uma menina negra que, mais tarde, iria revolucionar por completo o mundo da Dança e mostrar ao mundo como a mistura exótica de culturas podia dar resultados tão excepcionais e duradouros. O pai de Katherine Dunham era um homem de negócios afro-americano, a mãe tinha sangue índio e negro e Katherine demonstrou, desde tenra idade, um fascínio muito particular pela música e pelo ritmo, bem como um interesse genuíno pelas suas raízes. Em Chicago, estudou com Ludmilla Speranzeva ( a bailarina russa da Companhia de Ballet de Moscovo) e com Mark Turbyfill ( da Opera de Chicago), tendo feito a sua estreia, num papel principal, em 1933, na Companhia de Ballet de Ruth Page. Entretanto, ainda antes de acabar o Secundário, já tinha criado uma escola privada de Dança para jovens negros e, com 15 anos, organizou um espectáculo numa Igreja Metodista com o intuito de angariar fundos para promover a arte e a educação. Inspirada pelo trabalho de antropologistas como Robert Redfield e Melville Herskovits, que apontavam como vital a sobrevivência da cultura e dos rituais africanos no “caldo civilizacional” americano, Katherine obteve uma Bolsa e ingressou na Universidade de Chicago onde se licenciou em Antropologia. Esta bagagem extra no seu percurso académico teve uma influência determinante no seu trabalho e a confluência de conhecimentos em áreas tão diversas proporcionou-lhe uma excepcional riqueza de fontes e uma enorme maturidade, tanto no seu trabalho como dançarina como no de coreógrafa, 

Entre 1935 e 1936, Katherine, que tinha recebido uma nova Bolsa de pesquisa, viajou pelas Índias Ocidentais (Jamaica, Trinidad, Cuba, Haiti, Martinica) e levou a cabo um exaustivo trabalho de campo, como preparação para a sua tese de licenciatura. O seu objectivo era conhecer as danças das Caraíbas, onde as raízes africanas eram bem visíveis. Seguindo o caminho percorrido pela escritora e (também) antropóloga  Zora Neale Hurston, Katherine dedicou-se especialmente às práticas de Voodoo no Haiti - mais tarde, foi considerada uma “mambo” ou sacerdotisa do culto - e quando entregou o seu trabalho, em 1939, este tinha como título “Danças do Haiti “. Acabou por ser publicado em 1946 e tornou-se uma obra de referência, tal como “Journey to Accompong” ( 1946) e “Island Possessed” (1969) . Esta experiência - Katherine comprou uma casa no Haiti onde, mais tarde, passou largas temporadas e se envolveu na sociedade e na política locais - transformou a sua visão da Dança e definiu, para o resto da vida, uma orientação muito específica no seu trabalho. 

De regresso a Chicago, e para grande surpresa dos seus colegas antropólogos, Katherine optou decididamente por uma carreira dedicada à música, ao teatro, ao estudo do movimento e à educação. Num período que se estendeu até 1967, a bailarina não teve um momento de descanso. A sua carreira, que tivera o seu início na Broadway, num espectáculo, em 1930, em que ela apareceu com uma gaiola de pássaros na cabeça e a fumar um charuto, (símbolos das mulheres que vagueavam pelos portos das Caraíbas), ficou muito cedo marcada por um estilo excitantemente novo que se impôs com grande força. Katherine dançou no Ballet Négre, a primeira companhia de bailado totalmente negra nos Estados Unidos e foi seduzida por Hollywood, onde apareceu em filmes como "Stormy Weather" e "Cabin in the Sky" que coreografou em conjunto com o grande George Balanchine. Por esta altura conheceu John Pratt, um canadiano branco ( uma ligação inter racial, nesse tempo, suscitava controvérsia) que se tornou seu associado na produção dos espectáculos e com quem casou.  As representações dos Dunham Dancers com cenários e guarda-roupa exuberantemente exóticos, desenhados por Pratt, produziram um impacto instantâneo e um sucesso estrondoso em toda a América. Em 1940, um crítico extasiado do New York Times escreveu o seguinte acerca de Katherine: “ O seu sentido de ritmo, a sua forma de dançar, o guarda-roupa, a coreografia a sua teatralidade, secundados por excelentes bailarinos (fazem com que) este espectáculo seja considerado um marco da música negra, de uma vez por todas. O palco vibra e ela é escaldante”. 

Em 1943, de regresso a Nova Iorque e sob a batuta do famoso empresário Sol Hurok - que fez um seguro às pernas da bailarina de 1 milhão de dólares -  a Companhia pôs em palco a Tropical Review que foi um grande sucesso e se manteve em cena durante meses, num total de 156 representações a que se seguiu uma tournée pelos Estados Unidos e Canadá. 

Em 1947 foram para o México, a que se seguiu a Europa, onde se tornaram a sensação do momento - em Paris foram especial e entusiasticamente aplaudidos por Maurice Chevalier,  Bernard Berenson  e os antropólogos Alfred Metraux e Claude Lévi-Strauss - a Austrália e a Argentina, onde Eva Péron alojou Dunham no palácio presidencial.

Desde os anos quarenta, quando foi inaugurada a primeira das várias Dunham School of Dance and Theatre e durante os vinte anos seguintes Katherine produziu centenas de espectáculos e coreografias, cruzando ballet moderno com clássico, ritmos tradicionais africanos, das Caraíbas e da América do Sul com Jazz e incorporando rituais de iniciação e outras cerimónias que ela estudara durante os seus trabalhos como antropóloga. Nas suas escolas os curricula incluíam, entre outras disciplinas,  Antropologia, Psicologia, Filosofia, Língua, Lógica, Introdução à Ciência, História do Teatro, Ballet, Folclore das Caraíbas, etc.    

No início dos anos sessenta, inspirada pelos movimentos dos direitos civis e revoltada com as condições nos guetos de East St. Louis, Katherine, juntamente com o marido, fundou o

Performing Arts Training Center (PATC) e o Dynamic Museum em East St. Louis cujas actividades se centravam na educação de jovens em risco. Estes lugares, vocacionados para captar uma comunidade problemática, atraíam bailarinos e bailarinas muito novos a quem era ensinada uma sofisticada técnica que incluía o desenvolvimento de movimentos baseados na flexibilidade do torso e da coluna vertebral e na rotação do pélvis “desligado” dos membros inferiores, numa estratégia de movimento poli rítmico, o que incutia orgulho e gosto pela História dos afro-americanos e uma compreensão profunda das raízes da comunidade. 

Em 1962, a Dunham Company fez a sua última representação na Broadway, em Nova Iorque  e, em 1967, depois de uma derradeira aparição no célebre Apollo Theatre no Harlem,  Katherine resolveu retirar-se de cena, em 1967, depois de ter colaborado com as Orquestras Sinfónicas de São Francisco e Los Angeles e de se ter tornado a primeira afro-americana a coreografar espectáculos para a Metropolitan Opera de Nova Iorque e de ter ensinado movimento a actores como Marlon Brando e James Dean. 

No entanto, o seu trabalho não terminou e uma das suas melhores produções posteriores foi  para a ópera de Scott Joplin, Treemonisha, em 1972.

Até morrer, em Maio de 2006, Katherine demonstrou uma energia e carácter consideráveis. Em 1992, já com 82 anos, entrou em greve da fome, para protestar contra as deportações de refugiados haitianos levadas a cabo pelo governo norte-americano. Toda a sua arte, vivacidade, energia, dignidade  e força foram bem documentados pelo coreógrafo Alvin Ailey que, em  1987, evocou a sua vida e o seu trabalho em "The Magic of Katherine Dunham" 

Quem a conheceu diz que ela possuía uma beleza extraordinária, mesmo na velhice, e era muito reservada e calma, fora dos palcos. Mas quando dançava gostava de interpretar os papéis de sedutora fatal, de sereia sensual e perigosa, de mulher possuída pelo frenesim do sexo. Apreciava os contrastes, a variedade e as emoções fortes, mantendo sempre uma atitude de enorme profissionalismo e de técnica de dança rigorosa. Quando lhe perguntaram como poderia definir a importância do seu trabalho, Katherine respondeu: “ Sempre me pareceu que numa análise final, não é a investigação e a anotação do material recolhido in loco  que são importantes mas sim uma evidência prática e tangível ( que acontece) na sua utilização e tradução para a criação.”

Chamaram a Katherine “ a antropóloga que fazia rodopiar as ancas” , “ a intérprete por excelência dos ritmos primitivos da dança ”. Ao longo da sua vida, ela, que foi também jornalista, professora, realizadora de cinema e escritora, continuou a lutar pela igualdade racial, tendo dedicado muita da sua energia e talento a causas nobres do âmbito social e artístico, afirmando que a Dança está profundamente ligada a tudo o que é fundamental, na sociedade. É considerada como pioneira na utilização de temas étnicos incorporados na dança, foi galardoada  com prémios, doutoramentos  e homenagens de todo o mundo mas o seu trabalho como formadora foi o que lhe granjeou a devoção e admiração de inúmeros alunos que continuam, até hoje, o seu trabalho. A maior parte dos coreógrafos importantes da geração seguinte - tais como Pearl Primus, Geoffrey Holder, Jean-Leon Destiné, Charles Moore e Maya Deren, entre outros - foram membros da Dunham Company e fortemente influenciados pela sua forma de ver o mundo.  

O grande jornalista Walter Cronkite fez a seguinte descrição de Katherine: “uma coreógrafa com o olhar de uma antropóloga e a alma de uma artista.”

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publicado às 19:34


por Oldfox, em 26.03.15

MURIEL SPARK e o pós-modernismo antecipado

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 "Raparigas de Escassos Recursos"

Engenho e arte em tempos difíceis

 O Clube May of Teck, situado no centro de Londres, escapara quase incólume ao Blitz e continuava, em 1945, a servir os seus propósitos de “Conveniência Pecuniária e Protecção Social das Senhoras de Escassos Recursos com menos de trinta anos”. Era o que tinha sido estipulado nos primórdios do século XX, quando as mulheres começaram a acorrer a Londres com as suas ideias progressivas e movimentos sufragistas.  No início deste romance da escocesa Muriel Spark, vivem-se os momentos finais da 2ª Grande Guerra, e a casa, depois de uns tantos vidros estilhaçados, substituídos prontamente depois de cada investida, e uma bomba por deflagrar enterrada no solo, demasiado perto mas quase invisível, está em permanente agitação. Assemelha - se a uma colmeia, uma imagem apropriada quando se trata de umas dezenas de mulheres a viverem juntas. Há entradas e saídas, risinhos e choros, roupa estendida, vestidos trocados, experiências confessadas, confidências sussurradas, visitas esperadas e desejadas. Os homens são atraídos pelo Clube como zângãos por mel porque “… poucas pessoas vivas da altura eram mais encantadoras, inventivas, comovedoras e … mais selvagens do que as raparigas de escassos recursos” (pág.11). O Clube funciona como uma sociedade em miniatura: à medida que se vai subindo de andar, mais alto as suas ocupantes se encontram numa hierarquia que se estende desde “… (as) jovens virgens, bonitas e pudicas que jamais se tornariam mulheres plenamente afirmadas, até às mandonas na casa dos vinte e muitos que se tinham afirmado demais para poderem render - se aos homens “ (pág. 32). Numa casa-de-banho há uma estreita clarabóia por onde as mais ousadas - e as mais magras - se escapam para um beiral onde intrépidos e maravilhados rapazes do prédio ao lado as encontram, por vezes tal como vieram ao mundo. (Quando os meios são escassos, o que poderá ser mais poderoso do que a nudez?)

Estas raparigas são Jane Wright, editora e poeta (um retrato bastante fiel da própria autora), Judy Redwood, a estenógrafa Dorothy Markham, cujo principal atributo é uma bem fornecida dose de frases feitas, Pauline Fox, perturbada mentalmente mas deixada em paz na sua “performance”, Selina, esbelta, sofisticada e aventureira que com um cruzar de pernas lânguido consegue todos os coupons de racionamento com que se pode sonhar e, ainda, Joanna Childe, a filha do vigário de província, amante de Poesia que dá aulas de dicção a Nancy Riddle. Cada uma das jovens é uma personagem única com as suas predilecções e anseios onde se misturam homens, roupas, empregos, um precioso e cobiçado vestido Schiaparelli, serões conviviais e truques para arranjar o que for necessário no mercado negro. Numa época de tão grande escassez, as raparigas gerem os seus parcos bens com uma invejável economia, até mesmo no que diz respeito a namorados que morrem (tantos e tão longe) a tal velocidade que é necessário substituí-los com a presteza própria de tempos de crise. Com uma história marcada pela mordacidade, Muriel Spark utiliza uma espécie de lirismo pungente, atravessando a acção com referências múltiplas a Poemas que soam como um eco por toda a casa, pela voz de Joanna, o coro da tragédia com os seus presságios funestos num mundo caótico mas alegremente despreocupado. Muriel Spark é exímia no desenho destas situações e as jovens habitantes de May of Teck assemelham-se às alunas de Miss Brodie, a mestre escola que se recusa a “ficar petrificada” no auge da sua vida e que deu o nome ao mais célebre romance da sua criadora. Foi em “Miss Jean Brodie na Flor da Idade”, publicado em 1961 que Spark criou a sua mais completa personagem, cómica, repelente e fascinante, amante de Arte e de Mussolini, a ensinar às suas pupilas que o que importa na vida não é a “segurança” mas sim a Bondade, a Verdade e a Beleza, por esta ordem. 

As raparigas de escassos recursos em 1945 quando “todas as pessoas boas de Inglaterra eram pobres, salvo raras excepções”, sabem bem que não existe futuro, que a Poesia é coisa do passado - Lord Byron, Tennyson, Coleridge, Mathew Arnold, Kavafis e até mesmo Shakespeare soam de uma forma incongruente, neste cenário - e que é preciso andar para a frente, sem hesitações. Nesta história tudo está claramente distorcido pela guerra, pela escassez de meios, pela ausência de passado e pela incerteza quanto ao que está para vir. 

A digna e extravagante “ Dame” Muriel Spark não foi uma estranha a este estado de coisas.  Nasceu em Edimburgo e depois de um casamento com o instável Sydney Spark, que a levou até África, Rodésia, (actual Zimbabué) onde nasceu o seu filho, Robin, e de onde fugiu logo que foi possível, instalou-se em Londres para construir uma carreira. Depois de algumas vicissitudes - trabalho intenso como editora e colaboração com a espionagem britânica, uma depressão grave que coincidiu com a crise espiritual que a levou à conversão ao catolicismo – exilou-se voluntariamente em Itália onde, em 1968, conheceu Penelope Jardine com quem viveu até ao fim da vida. Mas em finais da 2ª Grande Guerra, quando se passa esta história, ela era uma entre muitas outras raparigas, a esgaravatar para sobreviver e a divertir-se, provavelmente a angariar algum pecúlio extra exactamente como Jane Wright com as suas assinaturas de “grandes escritores vivos”.

“Raparigas de Escassos Recursos” é um exercício interessante de uma autora de fartos meios que sabe como usar as referências literárias e a ironia. Tal como o seu amigo Graham Greene ( também convertido ao catolicismo) ela foi uma das escritoras mais carismáticas do pós-guerra. A amante de “A Tempestade” de Shakespeare, com o seu estilo enigmático e desconcertante, gostava de dizer que o Inferno está vazio porque todos os diabos habitam a terra, acrescentando que, da Santíssima Trindade, era o Espírito Santo que a atraía mais porque representava, realmente, o sopro da vida que ela tão bem soube descrever na sua obra.

Raparigas de Escassos Recursos

Ed. Relógio D’Água,

Tradução: Margarida Vale de Gato

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publicado às 15:37


por Oldfox, em 25.02.15

JOYCE CAROL OATES, "A Filha do Coveiro"

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Sonhando a América

Os primeiros colonos que desembarcaram nas costas americanas, ao deixarem para trás um passado de tirania, perseguições religiosas, estigmas sociais e, muitas vezes, penas judiciais – dívidas, assassinatos, crimes de toda a espécie – procuravam um futuro, numa terra idealmente virgem e não contaminada pela História. A grande epopeia americana, “cantada” pelos seus autores mais ilustres, assentou nesse momento único (repetido ao longo de séculos) que teve sempre o peso de um baptismo ritual e expurgatório. Impulsionados pela energia da conquista de espaço e pelo incremento posterior do poderio industrial, científico e tecnológico, os “pais ( e mães) fundadores” adquiriam, assim, uma esperança renovadora nesse universo de “liberdade, igualdade, fraternidade” e, principalmente, de oportunidades. A saga da exploração territorial da “fronteira” selvagem, com os seus rasgos de heroísmo e resiliência, devidamente recompensados por novas vidas esplendorosas, foram enaltecidos, na sua vertente espiritual, pelo poeta Ralph Waldo Emerson no ensaio de 1844, “Nature” e em incontáveis versos, baladas, folhetins e músicas que constituem, verdadeiramente, a base da cultura popular americana. E se Henry James e Edith Wharton regressaram à Europa – para eles, ainda, a matriz civilizacional – e tiveram o cuidado de apontar a dedo uma certa podridão subterrânea na sociedade afluente do seu País, foi preciso chegar a autores como por exemplo Hunter S. Thomson  e Cormac McCarthy – por sua vez discípulo de William Faulkner e de Carson McCullers – para conhecer todo o horror da tomada, pela força, do Novo Mundo, despido de floreados heróicos – as boas intenções de alcançar a fama e o sucesso pelo empenho e o trabalho árduo dão lugar a fórmulas bem mais cruas e cínicas – e da ilusão das quimeras do ouro da Califórnia ou da prata do Nevada.

Em “A Filha do Coveiro” Joyce Carol Oates recupera todos estes mitos e, tal como por exemplo McCarthy em “Meridiano de Sangue”, desenha uma epopeia onde, com a frieza lírica que a caracteriza, destrói e estilhaça o famoso “sonho americano”, transformando-o num autêntico pesadelo em que, para além da óbvia distorção perversa da noção de prodigalidade e hospitalidade do império americano, não perde de vista os seus temas favoritos: a reinvenção da identidade, o estigma dos preconceitos, a maldade dos ignorantes, o preço a pagar pela duplicidade e pela mentira.

Centrado nas agruras suportadas pela família Schwart (corruptela do germânico “schwarz”, negro), imigrantes alemães empurrados pelo sopro férreo e devastador da “besta nazi”, toda a acção do romance gira em torno da figura de Rebecca Schwart – baseada na avó da autora – uma jovem mãe a trabalhar duramente numa fábrica, algures no interior da América. Um dia, no Outono de 1959, quando regressa a casa por caminhos desertos, é abordada por um homem que a confunde com uma certa Hazel Jones. Vinte anos mais tarde saber-se-á que o seu perseguidor é um assassino em série; no entanto, esse encontro irá determinar uma mudança radical na sua vida. Bravia, esquiva e corajosa (traz sempre no bolso uma barra de metal com uma ponta afiada), Rebecca escapa ilesa e Oates volta atrás no tempo para relatar a sua trágica história. Os Schwart, juntamente com outros milhares de refugiados, tinham aportado em Nova Iorque, em 1936. A mãe, Anna, dá à luz Rebecca ainda no barco, por entre a imundície e o desconforto, após dias de viagem tortuosa. O pai, Jacob, antigo professor do liceu, vê-se forçado a aceitar (e a agradecer) um emprego como coveiro em Milburn, uma povoação recôndita e sombria; Anna nunca recupera do parto e do choque do exílio: os irmãos de Rebecca, Herschel e Gus, obrigados a ajudar o pai na sua penosa e humilhante tarefa – Jacob tem de tratar das campas daqueles que o desprezam e à sua família – são marginalizados, perseguidos e acabam por desaparecer na vastidão do território americano. Resta Rebecca que escapa à morte, primeiro ao nascer (“queres que a sufoque?” pergunta Jacob) e depois, aos treze anos, no dia em que o pai agarra numa caçadeira, dá dois tiros em Anna e se suicida de seguida não sem, antes, ter apontado à cabeça da filha. Rebecca enganará a morte mais uma vez quando foge do suposto marido, o “encantador” e sexualmente convidativo Niles Tignor, bom companheiro de bebida e poderoso garanhão, conhecido em todo o lado pelas suas maneiras afáveis e temido pela sua violência. Tignor, com o seu brutal nome viking, casa com Rebecca quando ela tem dezassete anos e contribui para a criação de uma nova personagem – a de “esposa” dócil e mãe – na sua viagem de permanente reinvenção, de tentativa de deixar para trás o cheiro húmido da casa de pedra da infância, o fedor da terra do cemitério, a pobreza e a estranheza dos outros. Niles arrebata -a com a sua falsa alegria e o seu gosto pela aventura mas é um alcoólico violento e ciumento para quem Rebecca é um objecto sexual exótico que o enlouquece (trata-a por “minha judiazinha, minha cigana”) mas que ele domina e despreza. (Quando Rebecca perde o primeiro filho ele limita-se a dizer alegremente, “ deixa lá, fazemos outro!”). Rebecca fugirá dele depois de ser, mais uma vez, brutalmente espancada e ameaçada de morte, iniciando uma louca viagem com o filho Niles Jr – que ela passa a chamar Zacharias, um nome bíblico que “compensa”, de certa forma, a sua passagem de Rebecca para Hazel Jones, este sim, um bom, caseiro e encantador nome americano. Na sua persona Hazel Jones procurará muitas vidas diferentes, muitos empregos e muitos lugares até encontrar Gallagher um músico, filho de um milionário, que a toma sob sua protecção. No final, em 1999, Rebecca/Hazel, cansada e doente procura algo que a ligue ao passado e às suas raízes, entrando em contacto com uma prima, Freyda, que ela supunha morta. As cartas trocadas entre ambas fecham o livro, deixando um sinal inquietante: a assinatura da prima na última missiva é uma versão tosca da suástica, cuja sombra perseguiu sempre a “filha do coveiro”, desse emigrante revoltado, forçado a sair da sua terra para ficar preso a uma América hostil onde é confundido com os seus próprios carrascos – chamam-lhe boche e as cruzes gamadas são inscritas nas paredes do cemitério.

Mesmo abusada, espancada, humilhada e até amada, Rebecca /Hazel é uma sobrevivente que rasga as trevas da sua existência com arrojo e determinação. As heroínas de Joyce Carol Oates são, na maior parte da sua obra, intrépidas e solitárias, a raiar a delinquência – ou mesmo criminosas – crianças, adolescentes e mulheres com profundas marcas físicas, psicológicas e morais, resistentes a intempéries de toda a ordem. Embora sejam vítimas de uma sociedade onde a violência serve de base de todas as relações, tanto familiares como sociais, não se deixam abater e não há nelas a mais pequena réstia de auto-piedade. Como pistoleiras vingadoras de um antigo “western” nada as faz vergar ou poisar as armas, num universo hostil, preconceituoso e desregrado. A escrita avassaladora de Oates cria uma espécie de febre que parece apoderar-se dos seus personagens e escapar-se numa torrente de palavras inspiradas que nos recorda a exaltação de outra grande escritora, Flannery O’Connor. No seu poema “Dreaming América” (1975) Oates escreve: “Onde cavalos pastavam num sonho sem história/ esta noite, uma jovem de treze anos devaneia/ colada ao vidro da montra da  Levitz's Record Shop/ Passamos por ela, apressados. Desaparecemos/ E regressamos. “

A Filha do Coveiro, Joyce Carol Oates, Ed. Sextante, Tradução de Susana Baeta e Miguel Castro Caldas

 

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publicado às 15:32


por Oldfox, em 12.02.15

Os paradoxos em CLÁUDIO E CONSTANTINO de Luísa Costa Gomes

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Regresso Infinito

" Podemos realmente começar antes de começar realmente?" - pergunta Constantino, à laia de introdução, nesta "novela rústica em paradoxos", como a define a autora. É uma variante da célebre fórmula "era uma vez" que funciona eternamente como ignição para a sucessão torrencial de histórias, aventuras, desmandos, sonhos e desassossegos, aqui protagonizados por dois irmãos, o impaciente e turbulento Constantino e o reflexivo e melancólico Cláudio. São rapazes à solta ( "a cavalar") numa grande casa que brilha na escuridão, num vasto campo, com uma alargada e amável família. Os preceptores sucedem-se -  lá mais para o final chega Orlando, mas só irá complicar a situação - a Mãe anda ocupada com o Bebé, o Pai está longe, o Avô e a Avó são gentis e divertidos, há um batalhão de Tias, a prima Florença toca piano e é demasiado bela para ser olhada e o cão Fortaleza, a cozinheira Escolástica, a criada Dulcínia - que gosta de meter medo com histórias de fantasmas - são outros tantos intervenientes neste relato sobrepovoado por figuras em tudo exemplares. Cláudio e Constantino discutem exaustiva e impertinentemente o que vêm, o que ouvem, o que sonham, o que fazem, o que é feito por outros e até o que não se ouve, o que não se vê, o que não se sente e o que não se faz. Esta prática continuada, num mundo que é um laboratório propício à investigação, começa com um episódio nada edificante: os irmãos decidem dar banho a um número indeterminado de pintos. Fazem-no com extremo cuidado, questionando a bondade do gesto, mas o resultado é a morte dos animais por afogamento. Este acidente desata os fios de um novelo feito de problemas intermináveis - "como é que boas intenções podem ter consequências terríveis?" ou, "porque é que Constantino não é castigado quando ele próprio exige ser castigado? -  que se vão desenrolando em paradoxos, dilemas, impasses e conflitos cada vez mais intrincados que desaguam em constantes "aporias", um termo que, na definição de Aristóteles, remete para a “igualdade de conclusões contraditórias", ou, na filosofia de Zenão de Eleia, está relacionado com juízos sobre a impossibilidade do movimento.  

É claro que o paradoxo tem, por si só, um efeito de extrema comicidade, plenamente conseguido em "Cláudio e Constantino". As histórias, que se sucedem ao ritmo das de "As Mil e Uma Noites", são deliciosamente divertidas e por vezes hilariantes. O cruzamento da grande erudição com a descrição de actividades comuns, como a labuta no campo ou os cuidados urgentes com um recém-nascido, a sucessão de personagens típicas das fábulas - a Criada, a Rapariga, os animais falantes, etc.  - as desvairadas aventuras, as personagens desarmantes - como a tia Eva que está escrever um livro sem fim, uma autobiografia que, evidentemente, não pode terminar  - compõem uma bem humorada e complexa narrativa, com imagens exuberantes e a afirmação dessa força superior que é a imaginação, constantemente movida pela curiosidade e pela inteligência.

Luísa Costa Gomes é uma autora com ligações profundas ao teatro e não é de admirar que o relato se desenrole numa sucessão de "cenas", com os protagonistas a entrarem para dizerem as suas deixas, para anunciarem factos, calamidades, acontecimentos banais ou intenções e a saírem dos cenários, muitas vezes chamados para outras tarefas, desviados dos seus intuitos, ou simplesmente removidos quando já não são necessários.

Em "Cláudio e Constantino" existe, ainda, uma óbvia homenagem a Lewis Carroll e às suas inumeráveis charadas, e a outros autores como Salman Rushdie, que tem usado o "encantamento" (fenómenos não explicáveis pelo exercício da Razão), por exemplo, em "Último Suspiro do Mouro" e em "A Feiticeira de Florença".  Os irmãos "viajam" nos sonhos - como em "Peter Pan" - o pai dos rapazes, que é da Marinha Mercante, anda no mar à procura da Ilha que Não Existe e a autora aproveita as regras dos navegantes para um exercício em torno do conceito de "Catch 22" como foi formulado pelo escritor Joseph Heller. Outras alusões importantes dizem respeito às célebres aventuras do Barão de Munchhausen - cruzar o espaço numa bala de canhão - às obras da Condessa de Ségur que, com as suas "Meninas Exemplares" e principalmente "Os Desastres de Sofia", certamente inspirou as figuras dos primos da América, os quais, de cada vez que chegam, num único e temido dia, destroem tudo, pelo que a família, durante essas vinte e quatro horas,  é obrigada a retirar todos os objectos, armazená-los  e substituí-los por cópias.

Discípula assumida de Voltaire -  a releitura de "Micromegas" é essencial - Luísa Costa Gomes utiliza a técnica dos diálogos platónicos, exactamente porque muitos deles são considerados aporéticos, isto é, inconclusivos, e retoma constantemente a questão da medida temporal. Em "Cláudio e Constantino" não é possível determinar o tempo histórico, cronológico. A acção pode passar-se em qualquer século - a imaginação, o sonho, os afectos, os devaneios não são atributo de um momento específico - mas uma referência ao uso da internet e de um telemóvel surgem como uma surpresa. Sabe-se que, no início, Cláudio tem oito anos e Constantino, doze; que crescem ao longo da história; que esse crescimento não corresponde necessariamente a uma progressão temporal; que é certo e sabido que o tempo tanto pára - como quando nos apaixonamos - como arranca à desfilada sem se deter; que tanto é líquido, como sólido, que escorre, se evapora ou se detém. No capítulo final, "Depois de Acabar", é apontada uma curiosa lista de referências usadas pela autora, oferecendo-nos pistas para um universo estranhamente familiar e consolador, apesar da auto-contradição permanente que nos obriga, alegremente, a ultrapassar incontáveis dificuldades, dúvidas e incertezas.

©Helena Vasconcelos. Texto publicado inicialmente em Jornal Público, Lisboa, Suplemento cultural Ípsilon, 2014

 

Cláudio e Constantino, Luísa Costa Gomes, ed. Dom Quixote.

autor_luisa_costa_gomes.jpgFotografia de Luísa Costa Gomes por Graça Sarsfield

 

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por Oldfox, em 29.01.15

J.M. Coetzee - "Verão"

 

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O droewige land! Oh, terra lúgubre!

Quem está familiarizado com a obra do escritor sul-africano J.M. Coetzee conhece bem as suas preocupações, obsessivamente recriadas de livro em livro: a defesa dos animais e do vegetarianismo, a dificuldade das relações entre homens e mulheres e o conflito severo e trágico com implicações linguísticas, rácicas, geracionais e territoriais, que mantém em relação à sua pátria de origem, a África do Sul. Em “Verão”, o último de uma trilogia “autobiográfica”, Coetzee, misterioso e cioso da sua privacidade, coloca-se no papel de morto, passando definitivamente à condição de personagem da sua própria ficção e imaginando-se como objecto da atenção de quem com ele privou mais de perto. Seria um exercício de puro narcisismo não fosse dar-se o caso de Coetzee ser um autor muito hábil que consegue a maior façanha de um escritor, o de iludir completamente o leitor, levando-o a segui-lo neste magistral embuste. Os factos descritos – embora surjam como entrevistas e notas de um tal Vincent que prepara uma biografia do famoso John Coetzee, referência da Literatura mundial, vencedor de um Nobel e de dois prémios Booker – parecem verídicos e correspondem aos dados que aparecem nas biografias “oficiais” do controverso autor. Embora ele já tenha feito uso de alter-egos –  “Elizabeth Costello” no livro do mesmo nome, o professor de “Desgraça”, o “senhor C.” de “Diário de um Mau Ano” – “ Verão”, tal como os anteriores “Infância” (“Boyhood” - 1997) e “Juventude” (Youth - 2002), é claramente autobiográfico. No entanto, como Coetzee (o autor) não é de fiar, principalmente quando faz de demiurgo, qualquer destas obras poderá ser enquadrada num género híbrido, numa espécie de ensaio sobre a autobiografia, visto que é impossível escamotear o facto de Coetzee ser, também, um extraordinário ensaísta e conhecedor profundo da Literatura universal: Kafka está sempre presente, principalmente quando se trata da utilização de uma bizarra ironia, bem como os grandes romancistas russos, como Tolstói, a quem foi buscar os títulos “Infância” e “Juventude” e a inspiração para livros como “Diário de Um Mau Ano” com ecos de “A Morte de Ivan Ilych”, e Dostoiévski, um autor que é, também, o tema central de “O Mestre de S. Petesburgo”. Nesta trilogia, tão pouco passa despercebida a referência a Flaubert – o subtítulo é “Cenas da Vida de Província” – com quem Coetzee partilha a misantropia e uma espécie de opacidade sentimental e afectiva que, no caso do escritor francês lhe valeu ser objecto do longo estudo (inacabado) de Sartre intitulado “O Idiota da Família”. (Esta referência vem a propósito porque é assim que Coetzee se retrata através do olhar dos outros, principalmente das mulheres). Assim, Vincent, na impossibilidade de recolher em primeira mão dados pessoais de um autor tão esquivo que só deixou para a posteridade, não um diário, não uma correspondência reveladora, mas apenas fragmentos e notas – o livro começa com extractos de “cadernos de apontamentos” datados de 1972-75 e acaba com outros tantos, “sem data” – regista os depoimentos de cinco pessoas que o conheceram: o da psicoterapeuta Júlia que em jovem manteve com ele uma relação, o da prima Margot cuja simpatia lhe inflamou a imaginação em criança, o da dançarina brasileira Adriana, objecto do seu interesse erótico (ou, pelo menos, ela assim pensa), os dos colegas académicos Martin e Sophie. Os seus testemunhos contrariam a admiração quase generalizada em relação a tão grande figura das Letras e do pensamento, fornecendo uma visão intrigante e tão retorcida como uma pintura de Francis Bacon. Se o olhar de Martin J. (cujas iniciais são as de Coetzee, ao contrário) é pouco revelador mas “objectivo”, o das mulheres traem sentimentos complexos que reflectem desconforto, incompreensão e até irritação em relação a esse homem hesitante, fechado e até medíocre, nada dotado como amante, como filho, como amigo, como professor, em permanente conflito moral, afectivo, familiar e político, lutando (em vão) para se reconciliar com a sua situação de branco africânder num País que ele considera marcado indelevelmente pelo colonialismo, o apartheid e uma falta de identidade que nem Nelson Mandela conseguiu resolver.

Coetzee tem a desfaçatez de fazer troça de si próprio, ao descrever-se através do olhar necessariamente incompleto e “corrompido” dos outros, jogando com a relação promíscua entre o autor e os seus personagens e confundindo para sempre a impossível realidade. O título, “Verão”, parece querer reflectir o tempo pujante da entrada na vida adulta mas o conteúdo nada tem de solar ou de lúdico. Para John Coetzee, a maturidade representa a aguda percepção da situação política, o fardo que é viver com o pai viúvo, a luta para escrever e a incapacidade para o amor. John Coetzee é uma figura trágica, um idealista que persegue utopias mas que se encontra, simultaneamente, paralisado pela razão, que lhe fornece a fria constatação de que nada é possível. Num livro que é essencialmente sobre o poder da escrita, fiquemo-nos com uma frase lapidar: “toda a autobiografia é outra-biografia ou a biografia de outrem. As definições de género como habitualmente são feitas por leitores comuns são totalmente primárias. “ John Maxwell Coetzee dixit.

 Verão, J.M. Coetzee, Ed. Dom Quixote,

Tradução de J. Teixeira de Aguilar

5*

Jornal Público, Lisboa, 2009

2012-04-23_0947.pngImagens de um jovem John M. Coetzee

 

 

 

 

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publicado às 14:05


por Oldfox, em 15.01.15

DORIS LESSING - O Sonho mais Doce

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Os Crimes dos nossos Pais

 

“O Sonho mais Doce “ da britânica Doris Lessing, vencedora do Nobel de Literatura deste ano, devia vir com um aviso: “Este livro pode ser prejudicial para os nostálgicos da Revolução!”. Essa Revolução, que incendiou os ânimos nos anos sessenta e setenta é o tema deste romance que começa com os grandes movimentos europeus de rebelião do pós-guerra e termina nos finais do século XX. Devagar, numa narrativa que, a princípio, parece desfiar uma história banal de famílias imersas no brilho intenso dos amanhãs que cantam, a autora ajusta contas com a História. (Camaradas, companheiros unidos, cuidado com esta senhora que sabe do que fala).

Na nota introdutória, Lessing explica que este romance é uma alternativa ao terceiro volume da sua autobiografia - que não publica para “não magoar pessoas vulneráveis” - mas é óbvio que muitas das personagens são fac-similes das que atravessaram a sua vida, ou seja, a vida de Frances, o pivot desta “ficção“. É em torno desta mulher maternal, sólida - uma espécie de figura feminina primordial, uma mãe-terra – que revolteia a acção, por vezes caótica, do livro. É ela que acolhe, alimenta, dá apoio e protege todos os jovens que batem à porta da grande casa londrina com os seus múltiplos pisos, a sua glória fanada, a sua mesa farta e um sofá sempre pronto para os excedentários. A casa é da sua ex-sogra, Julia, uma alemã que casou com um inglês e que representa o passado com os fantasmas da Segunda Grande Guerra, isto é, a “herança nazi”, um facto que o seu próprio filho, o “camarada Johnny”, não se coíbe de recordar, principalmente quando ela lhe nega qualquer coisa. Johnny entrega-se, de alma e coração, aos deveres revolucionários pelo o que não pode perder tempo com assuntos burgueses - família, bens materiais, educação dos filhos, sofrimento psicológico - e repudia veementemente atitudes “fascistas” como as preocupações da ex-mulher e da mãe quanto à forma de gerir o orçamento familiar, fazendo desaguar, na grande casa, os “camaradas revolucionários da África Oriental”, jovens transviados, ex-mulheres e ex-enteadas. Chantageando e manipulando aqui e acolá, hostilizando os filhos e desapontando Frances - que está sempre à espera que ele contribua para a manutenção da família para poder dedicar-se à sua paixão, o teatro -  Johnny é quase uma figura cómica se não fosse tão pertinentemente nociva. (O seu egoísmo e cegueira é um reflexo da personalidade de Gottfried Lessing, o segundo marido da autora, um alemão que mais tarde foi embaixador da Alemanha Oriental no Uganda, onde foi assassinado, durante uma rebelião contra Idi Amin. Não pode passar despercebido, tão pouco, o facto de a própria escritora, quando jovem comunista no Zimbabué - antiga Rodésia, onde cresceu - tenha abandonado os filhos do primeiro casamento quando partiu para Londres, em 1949. )

Lessing, através de Frances, recorda esses tempos e as suas sequelas, a falta de dinheiro, a instabilidade, os trabalhos precários como jornalista, a pressão dos camaradas. “A vossa geração deve ser a mais arrogante e presunçosa que jamais existiu”, diz Colin, um dos filhos, exasperado com a “estupidez” do pai e com a permissividade da mãe. Na verdade, a casa onde cresce com o irmão Andrew e o resto dos pensionistas representa uma espécie de laboratório onde são chocados os ovos das serpentes: Rose, a frustrada e maldosa futura colunista de mexericos, Sophie, bela e inútil, Franklin, o jovem negro bem disposto que se torna um ditador corrupto à frente de Zimlia, um País cujas semelhanças com o Zimbabué não são coincidência, fazem parte de uma geração que gerou monstros;  é, também, o lugar onde é despejada a anoréctica Sylvia, a pomba, a criança etérea que se transforma em médica e parte para Zimlia, seguindo o seu caminho de mártir num lugar onde a Sida, a fome, o abandono, a cupidez, a paranóia e a corrupção grassam com devastadora rapidez.  

Assim, a segunda parte de “O Sonho…” é uma consequência da primeira e remete-nos para uma “actualização” do tema de “A Erva Canta”, o romance de estreia de Lessing, passado em África. É um relato doloroso e desencantado, que evoca magistralmente os efeitos do pós-colonialismo, a “grande farra” dos anos oitenta, a eclosão da Sida, o desamparo das populações e a hipocrisia do Ocidente. (Os gurus dos anos setenta transformaram-se em políticos influentes e desapiedados, em homens de negócios brutalmente ligados ao capital ou religiosos de uma qualquer seita). 

Quando publicou “The Golden Notebook” em 1962, Lessing, adepta e estudiosa do Sufismo, disse que o exercício da escrita lhe revelara que muitas das coisas em que ela pensava que acreditava não passavam de artifícios da sua própria mente e que a escrita tinha uma função curativa para o seu “eu” fragmentado pela desilusão com o comunismo, a rejeição emocional, a traição sexual, as ansiedades profissionais e as tensões entre amigos e familiares. Refere agora os horríveis sacrifícios que se fizeram em nome de utopias que degeneraram em abandono e conflitos sangrentos, utilizando a figura de Sylvia - um seu alter-ego redentor - para exemplificar o horrível desperdício das boas causas. Para uma mulher que foi educada numa escola católica na ex-Rodésia, (Mugabe também andou por lá) Lessing é de uma brutal franqueza quando diz que tem medo das religiões porque a sua capacidade assassina é aterradora. Ela sabe bem que a nova África foi (de)formada pelo cristianismo, pelo marxismo e pelas religiões primitivas animistas. Um cocktail explosivo e devastador que serviu os intentos de muitos dirigentes, barricados nas capitais e empenhados sobretudo em criar as suas vastas fortunas.

 Numa entrevista a um jornal americano disse que: “ olhando para trás… parece-me uma tragédia que nos tenhamos identificado com a União Soviética que era já, por definição, um falhanço com políticos corruptos que mentiam. Toda a esquerda estava sempre  a falar da União Soviética ou a defendê-la, o que a tornava conivente com esse falhanço. Na realidade, a União Soviética não tinha nada a ver connosco. Podíamos ter perseguido os nossos ideias na Europa, sem essa referência. Se tivéssemos agido dessa forma, o socialismo não estaria morto, como na realidade, está .“  Assim, a então jovem comunista fala com fúria dos ideais traídos; aquela que foi celebrada pelas feministas, desfaz à machadada, o feminismo; a adepta do amor livre, mostra agora as cicatrizes da aventura; a apoiante dos movimentos de libertação em África, não perdoa a corrupção que grassa entre os líderes do continente negro. “O Sonho Mais Doce” -  título surripiado a um verso de Robert Frost - venenoso, doloroso e arrasador, acabou há muito. 

 

Ed. Dom Quixote

Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

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publicado às 15:53


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