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por Oldfox, em 02.08.13

A evitar absolutamente: (este) Portugal

Impunidade - A Maré Negra

 

Antes de 1974, quando viajava - e nesse tempo o passaporte era usado em todo o lado, mesmo na Europa - sentia os olhares de quem não me conhecia pousados em mim, com um misto de desprezo e de comiseração. Por vezes ouvia um ou outro comentário menos simpático. Era cidadã de um País ligado à imagem de Salazar, isto é, à noção de ditadura que, por sua vez, estava associada á pobreza mental física e espiritual, ao atraso económico, cultural e civilizacional, ao desrespeito pelos direitos humanos e à ausência de liberdade. Apesar de nunca ter sido dada a nacionalismos - muito pelo contrário - aborrecia-me ser avaliada à luz da óbvia decadência do meu País.

Passeava pelo mundo de olhos brilhantes e desassossegados, sentava-me nos cafés, escrevia postais para a minha mãe, respirava o ar de outras paragens, exaltava-me com a beleza, estudava, amava quem me apetecia, mas não conseguia apagar o estigma de ser portuguesa, a sensação de, no fim da deambulação feliz, ter de regressar a um lugar insípido, triste, totalmente desinteressante e nada, mesmo nada, estimulante. O tempo passou, experimentei a alegria e o alívio de ver passar essa época, mas a História deixa profundas marcas. Tal como um alemão ou um austríaco, por muito humanos, sensíveis, inteligentes e carinhosos que sejam, não podem fazer desaparecer o nazismo, Hitler e outras figuras de sinistra memória - embora tenham, para contrabalançar, Goethe, Schiller, Novalis, Hölderlin, etc. -  tão pouco posso apagar a vivência dessa época e o estigma de ideologias tão nefastas que ensombraram esta terra, durante tanto tempo. É claro que a exaltação desse dia claro que foi 25 de Abril de 1974 se deve a muito poucos; mas o seu papel libertador foi cumprido e serviu de catarse para muitos, abrindo caminho a infinitas possibilidades de melhoria e transformação.  

Este preâmbulo, que nada tem de nostálgico, serve o propósito de acompanhar certas cogitações que suponho estarem também a fermentar na cabeça de muita gente: é que, neste ano da graça de 2013, já não é possível albergar dúvidas quanto ao rumo das nossas vidas que aponta, de forma insidiosa, para um retrocesso. Atenção: não estou a afirmar que o status quo actual se assemelha totalmente ao salazarismo ou ao nazismo. Não chegámos tão baixo. Mas a verdade é que a situação deste País é tudo menos recomendável.

Tomo como centro da minha reflexão o "caso BPN". É uma história de corrupção, ganância e crimes que define este País, marca toda a gente. Porquê? Porque, para além das óbvias perdas financeiras para algumas pessoas, para além do encargo que se transformou para todos nós - nós, quero dizer, pessoas como eu que nunca se meteram em especulação financeira e que estão a pagar as asneiras e malfeitorias de quem prevaricou - há outros aspectos que, suponho, vale a pena mencionar: o primeiro é a flagrante falha do sistema judicial. E um País que não tem uma Justiça firme e escorreita, à altura dos grandes desafios, é terra sem liberdade, sem "democracia". O segundo - consequência do primeiro - é este novo mundo de total impunidade, onde bandidos e gente supostamente "decente"  convivem com total desprendimento. O "caso BPN/SLN" é uma mancha nociva, purulenta e poluente que alastra como um cancro e se fixa em todos os órgãos daquilo a que chamamos Estado - e não só. Nem tudo - mas muito - tem a ver com o BPN mas o sentimento instalado é o de ignomínia. Se há pessoas que cometem crimes e nem sequer são beliscadas é caso para dizer que o terreno está aberto a todo o tipo de malfeitorias, é espaço de caça para os supostamente "mais espertos", sem leis nem ética. Uma ministra que mente numa comissão de inquérito, um Presidente da República que destabiliza um País e muda de rumo como e quando lhe apetece - e que ganhou com operações do dito BPN -  um primeiro-ministro que não tem uma única ideia na cabeça e sofre de uma tremenda amnésia, ministros que andam tão entretidos a "jogar" à política que nem se ralam com os danos colaterais que provocam, secretários de estado sob suspeita, banqueiros que vão à televisão dizer como as pessoas devem viver, figuras do jet-set que "brincam aos pobrezinhos" e o dizem alto e bom som - a história é estúpida demais mas a forma leviana como esta gente se expressa dá que pensar - e, principalmente o total desrespeito pela Constituição ( os pareceres do Tribunal Constitucional são atirados para o lixo com um revolteio desprendido e uma "justificação" tíbia) são apenas algumas das faces desta falta de pudor que parecem ter chegado a todo o lado, infiltrando-se no tecido social, destruindo o equilíbrio, como se justiça e injustiça, honra e crime se tivessem fundido num só monstro, numa hidra de inúmeras cabeças.

Creio que, no dia em que houver um castigo exemplar para os intervenientes responsáveis pela burla do BPN, o País beneficiará muito. Suponho que deveria ser possível a Justiça estabelecer um tempo de provisão cautelar que inibisse os altos quadros, os que sentaram os traseiros nos cadeirões das várias administrações ligadas a este caso, a exercerem quaisquer funções durante um tempo determinado - sim, Rui Machete nunca poderia ter ido para o Governo até se "limpar" - ou não - desta questão. Não só a Justiça teria de acelerar o passo como, também, os inocentes ficariam ilibados. Mas como está o País, com tanta gente "enlameada" com esta história funesta, continuamos imersos numa "maré negra" de corrupção, desconfiança e má fé que, de uma forma abjecta, se tornou prática comum e familiar por parte de cidadãos e cidadãs que deveriam estar a servir o Estado e a colocarem-se, pela sua correcção, fora do alcance da desconfiança e da, por vezes, óbvia e reconhecida mancha.

Não advogo qualquer "caça às bruxas" e não creio que o dinheiro seja algo "mau", pernicioso. Pelo contrário, acho, por experiência própria, que o dinheiro traz muita felicidade. É com dinheiro que podemos trabalhar com alegria, amar sem angústia, apreciar o Belo, cultivarmo-nos e tratar de nós. É com dinheiro que um País tem um serviço de saúde e uma educação para todos, que pode desenvolver o seu potencial de recursos humanos e naturais. É com dinheiro que estamos mais próximos uns dos outros - ou não - é com dinheiro que as comunicações se fazem e se constroem bens e estruturas sólidas. É com dinheiro que se alicerça a Cultura, algo que deveria ser tão essencial como a alimentação. ( Quando falo em Cultura estou a pensá-la a vários níveis, obviamente).

O que não é possível é a continuação deste estado de coisas. Não quero voltar a sentir-me estranha na minha própria "casa" devido ás más companhias. Não quero acordar todas as manhãs a pensar que a única coisa que tenho a fazer para me sentir melhor, mais livre e menos contaminada é trocar de nacionalidade e livrar-me deste sentimento de desprezo e de vergonha.

1 Agosto, 2013

 

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publicado às 12:54


2 comentários

De Marina Tadeu a 02.08.2013 às 13:28

Helena, nada de cortar cordões que a mim pouco serviu. O truque, talvez, é perder a vergonha - como eles: ou orgulho - como nós.Todos os países são corruptos antes, durante e depois. Sem corrupção não existiriam. Com os meus binóculos embaciados pelo smog de mais um Verão londrino, vejo-te como mais uma prova de que uma nacionalidade também se afirma pelo reverso.

Desabafa, que depois de me teres dado a conhecer a Wislawa Szymborska, sou toda ouvidos para ti.

Obrigada.

De Anónimo a 03.08.2013 às 16:34

Texto fortíssimo. Texto, cujo conteúdo é impossível não se estar de acordo.
Enquanto a justiça não funcionar não haverá esta de direito e nunca haverá democracia se o estado de direito não fôr efectivo.
E o caso BPN está a ser transversal à vida toda do país. Mas nem todos somos parvos.
Tudo se percebe.

Inteligência, lucidez, acutilância e coragem são algumas das tuas muitas qualidades, Lena.


Cristina Carvalho

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