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por Oldfox, em 13.09.13

Paul Bowles

 
Fotografia de Paul Bowles por Daniel Blaufuks, 1991

 

Paul Bowles terá sido um dos poucos (e últimos) artistas verdadeiramente livres. É difícil, nestes nossos “tempos sombrios”, imaginar alguém – ainda para mais, um americano – que pudesse ser tão brilhante e simultaneamente tão independente, conseguindo desligar-se de preconceitos, religiões, dogmas, políticas e credos. Desde muito novo que, deliberadamente, se foi desfazendo de constrangimentos - como uma cobra larga as suas sucessivas peles – tornando-se a cada passo mais sábio, mais cosmopolita e mais singular. Numa altura em que a maior parte das pessoas deseja ser como outra qualquer, o livro “Memórias de um Nómada”, (Ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 2007) a sua autobiografia, mostra que há quem prefira traçar o seu próprio caminho e fazer escolhas muito pessoais. Bowles não se assemelhava fosse a quem fosse e manteve sempre uma independência de corpo e espírito que assombra e choca aqueles que já só conhecem este nosso mundo de desconfianças, conspirações e medos. Paul soube desenvolver as suas capacidades criativas, viveu intensamente e encontrou, na devida altura, toda a gente que valeria a pena ser conhecida, na segunda metade do século XX. Nesse aspecto, este livro poderá ser lido como um extraordinário catálogo de celebridades mas a forma como o autor aborda as diferentes formas de relacionamento com essas mesmas personagens - que fazem parte dos grandes mitos culturais, como Salvador Dali, Orson Welles, Peggy Guggenheim, Marcel Duchamp e muitos, muitos, outros é, no mínimo, absurdamente divertida e descomprometida. Foram pessoas com quem Bowles trabalhou, tomava copos, partilhava casas, procurava nas suas múltiplas viagens, viagens essas cada vez mais perigosas através de desertos e vulcões, com doenças e armadilhas terríveis que ele superava - muitas vezes com a mulher, Jane - com a destreza de um Indiana Jones. Foi esta personagem extraordinária que o cinema, pela mão de Bernardo Bertolucci, revelou ao mundo, em 1991, com a adaptação do perturbante romance "The Sheltering Sky", ingenuamente traduzido para português como "Chá no Deserto". Antes, Bowles era conhecido apenas por alguns “iniciados” que seguiam com atenção a sua vida nómada, as suas extravagâncias – comprou uma ilha, (a Taprobana de “Os Lusíadas”), instalou-se em Marrocos, era bissexual e amava o deserto e as regiões inóspitas – e o seu conhecimento profundo da cultura árabe. Bowles nasceu em Nova Iorque, Queens, em 1910 e morreu (1999) em Tânger, Marrocos, cidade onde viveu quase sessenta anos da sua existência. O pai era um artista falhado que acabou por se dedicar à odontologia. A sua infância foi solitária e muito produtiva. Na sua condição de filho único, inserido numa família “burguesa”, a educação que teve – se fizermos fé no que o próprio conta em “Memórias de Um Nómada” – oscilava entre a permissividade da mãe – que lhe lia Poe, Fenimmore Cooper e Nathaniel Hawthorne - e a severidade do pai, entre a super protecção e a crueldade. Na autobiografia, Bowles não esconde os seus sentimentos em relação aos progenitores de quem se afastou sempre, o mais cedo e o mais longe que conseguiu. Se, no seu relato, sempre em tom descontraído e por vezes desdenhoso, a mãe é retratada com bonomia e suavidade, o pai é tratado com a aspereza própria de um filho rebelde. Bowles não se esquece de relatar o facto de ter atirado uma faca ao pai num momento de maior tensão. (Nessa altura já era um adolescente “problemático”.) Mas foi graças ao fonógrafo comprado pelo pai que desenvolveu o gosto pela música a partir dos oito anos, altura em que começou a receber lições. Pelo o que conta da infância, a sua curiosidade era infinita e a sua energia inesgotável. Desenhava mapas sem parar, escrevia diários imaginários, imprimia jornais, redigia poemas e fazia, por sua conta e risco, vastas pesquisas em praticamente todas as áreas, tentando aprender tudo o que podia. Mais uma vez graças à sua situação de filho único e com o bónus de ter pais neuróticos, aprendeu naturalmente a apreciar a solidão e a torná-la produtiva. Cresceu num mundo habitado por adultos e cada membro da sua família era observado através do seu olhar muito crítico e perspicaz: tia Emma era morfinómana, a tia Mary uma acólita da célebre Madame Blavatsky, a fundadora do movimento Teosófico, o maior amigo do pai chamava-se Walter Benjamin – não o W.B. - .e por aí fora. Aos dezassete anos viu o seu primeiro poema publicado na "transition", uma revista literária com base em Paris e para a qual escreveram Joyce, Djuna Barnes, Gertrud Stein, Paul Éluard, entre muitos outros. Bowles, com a sua segurança e desprendimento tinha-lhes mandado a peça e eles tinham-na aceite sem discussão. Era um tempo em que as publicações culturais apareciam de um dia para o outro, um tempo em que se viajava à boleia e em barcos de carga. Aliás, foi esse o meio de transporte utilizado pelo autor, ao longo da vida – ficou farto do avião nas suas aventuras na América do Sul em que aterrava no meio do mato – e a forma como chegou pela primeira vez à Europa, no seu primeiro ano de Universidade. Em Paris, conheceu toda a gente digna de se conhecer, principalmente através de Gertrude Stein que, com Alice B. Toklas, orquestrava a vida e a obra de praticamente todos os que passavam pelo seu salão. Ela tomou o loiro e bem vestido jovem sob a sua protecção – chamava-lhe Freddy - e foi ela que o incitou a compor, a escrever e o mandou com Aaron Copland para Marrocos. Paul nunca pensou que essa primeira visita, em 1931, se tornaria, mais tarde, numa permanência de décadas. Foi a Argélia e Marrocos várias vezes, e o relato das suas experiências na autobiografia é tão hilariante como surpreendente. É curioso o contraste “descontraído” e directo deste relato com o tom dramático, catastrófico e carregado de angustia existencial da prosa de “O Céu que nos Protege” ( ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 2004) que, de qualquer forma, tem uma base biográfica. Bowles foi um viajante infatigável – daí o título da sua autobiografia – e antes da IIª Grande Guerra percorreu a Europa, enquanto aprendia alemão em Berlim, cidade onde desenvolveu uma amizade com Isherwood, o que levou este último a dar à sua heroína, Sally, o sobrenome de Bowles. Sem grande esforço tornou-se fluente em francês em Paris, em árabe em Tânger e em espanhol, em Espanha. Bowles também visitou longamente a América do Sul e traduziu do espanhol o escritor guatemalteco Rodrigo Rey Rosa que se tornou o seu herdeiro literário. Paul Bowles começou por ser poeta e, principalmente, compositor – afirmou que compunha enquanto dormia - tendo-se distinguido na escrita de peças para ballet, teatro e cinema. Musicou textos de Cocteau e de Gertrude Stein, entre outros - o que não deve ter sido nada fácil - estudou com Aaron Copland, viajou e, numa das suas estadas em Nova Iorque, em 1937, conheceu no Plazza Hotel uma jovem escritora extravagante que coxeava, frequentava bares de lésbicas e bebia muito, chamada Jane Auer. Voltaram a encontrar-se em casa do poeta e.e.cummings e seguiram para Harlem para fumarem erva. Casaram-se um ano depois. Os primeiros anos de casados foram os mais produtivos para ambos,em termos criativos. Paul compôs inúmeras peças e tornou-se famoso. Só para dar uma ideia, em 1943, no Museu de Arte Moderna de N.Y. apresentou uma zarzuela – T”he Wind Remains “ – cujo libretto era uma adaptação sua de um texto de Garcia Lorca, conduzido por Leonard Bernstein e com coreografia de Merce Cunningham. Os anos da América foram frenéticos, sempre com trabalho, mudanças de casa, vida social intensa e viagens. Com a inquietação de um verdadeiro “nómada”, Paul, secundado por Jane, não se contentava com Nova Iorque. De novo por sugestão de Gertrude Stein ,que dirigia as operações a partir de Paris, Paul e Jane acabaram por se instalar em Marrocos. Paul decidiu abandonar a música pela escrita, fosse para competir com Jane ou, mais provavelmente, porque estava farto de ir a Nova Iorque – cidade pela qual dizia ter um certo desdém – por causa dos concertos. Em Marrocos deslocou-se por todo o lado, embrenhando-se no deserto, visitando lugares interditos e experimentando a fundo tudo o que lhe era oferecido – o exotismo dos bordéis, as doenças, as lutas entre mercenários e separatistas, a desintegração psicológica, a música dos contos, as práticas de magia, etc. Entretanto, Jane publicava “Duas Senhoras Bem Comportadas” com assinalável sucesso - e algumas críticas assanhadas, como a de Anaïs Nin. Corria o ano de 1947. Paul com o seu impecável ar anglo-saxónico e a tresloucada judia ruiva tinham muito em comum: ambos desejavam explorar o que Tânger, uma cidade exótica, tinha para lhes oferecer. Com entusiasmo e um sentido de auto destruição invejável lançaram-se na busca de os limites do abuso sexual (mas não um com o outro), das drogas, do álcool, da literatura. Paul publicou “O Céu que nos Protege” em 1949, o seu primeiro grande livro, tornando-se um ícone, a figura venerada do andarilho, do exilado, do marginal. “O Céu que nos Protege” é a história desapiedada e feroz de dois amantes que teimam em não se entender, levando até ao limite as consequências dos seus erros e desvarios. O mito do casal maldito, vivendo à margem da sociedade ocidental, atraído por um abismo profundo de sensações e vícios, apaixonado pelo deserto e pelos seus feitiços e ratoeiras surge na pele de Kit e Port, compondo um drama que espelha o relacionamento de Paul com Jane, duas pessoas muito especiais que quiseram viver, de uma forma extrema e deliberada, o contrário desse “sonho americano” do pós-guerra que eles desprezavam e ao qual, um dia, viraram definitivamente, as costas. Foi em “O Céu que Nos Protege” que Paul tratou de revelar a sua viagem interior alienatória e a estranha relação com Jane. Esta, que entretanto se apaixonara por Cherifa, uma jovem marroquina por quem teve de pagar um dote considerável, mergulhava cada vez com mais intensidade no kif e na bebida. Ainda conseguiu escrever mais um livro “A Stick of Green Candy” - a sua obra -prima é o conto "Camp Cataract" - mas os excessos impediam-na de trabalhar, enquanto Paul se dedicava à recolha de música árabe, mantinha o seu bordel de rapazinhos, escrevia, traduzia o poeta Mohammed Mrabet e recebia visitas regulares de artistas e escritores que peregrinavam para se encontrarem com ele. Truman Capote, Tenesse Williams, Cecil Beaton foram alguns dos que participaram no desregramento de longas noites de orgias sexuais, regadas a champanhe. Embora Bowles rejeitasse a ligação com a “geração beat”, a partir dos anos cinquenta, autores como Jack Kerouac e Allen Gisberg visitaram-no em Tânger e colheram aí fortes influências. William Burroughs aproveitou uma longa e alucinante estada para escrever a sua obra mais famosa “The Naked Lunch” e Gore Vidal foi uma visita habitual. A personalidade de Paul atraía gente de todo o mundo, uma vez que era considerado uma espécie de guru. Em 1957, com apenas 40 anos, Jane sofreu um acidente vascular cerebral – correram rumores que Cherifa a tinha envenenado e Paul escreveu que Cherifa era perigosa, que andava sempre com lâminas com as quais ameaçava castrar qualquer homem que se aproximasse de Jane – e foi primeiro para Nova Iorque e depois internada numa clínica, em Málaga, onde acabou por morrer, em 1973. Paul abandonou praticamente a ficção desde que Jane saiu de cena. Em 1972 publicou a sua autobiografia e só voltou a escrever um romance “Too Far From Home”, em 1992, porque foi desafiado pelo pintor Miquel Barceló que ilustrou a primeira edição com aguarelas. Ainda em 1994, Jeffrey Miller, autor de uma biografia de Bowles editou e publicou cartas seleccionadas que reuniu em “In Touch”. Cinco anos mais tarde Paul morria no hospital italiano de Tânger. A figura que “abriu a porta à delinquência literária”, de acordo com um dos seus críticos, foi uma espécie de Rimbaud que não desistiu do seu sonho envolto nos pesadelos das drogas, da alienação e de uma liberdade quase insustentável, feita de tumulto e de um grande desprendimento. Bowles conseguiu sempre viver à margem, mantendo, no entanto, uma calma e equilíbrio invejáveis. Tinha alma de vagabundo mas vestia-se e agia como um "gentleman". Era um artista com uma produtividade espantosa mas tinha uma atitude muito desprendida em relação ao sucesso. Conseguiu passar na vida sem nunca se adaptar ou conformar com os ditames das instituições. Sem grande empenho e decididamente sem espalhafato, passou ao largo de Deus, de qualquer Pátria ou autoridade. A família, o casamento, as amizades, a arte e os costumes foram por ele encarados de uma forma totalmente singular. O fotógrafo português Daniel Blaufuks que , com Bowles publicou em 1991 "My Tangier", captou na perfeição esta espécie de aristocracia de espírito que sempre o caracterizou, a sua calma perante a velhice e a morte, a curiosidade intensa e generosidade sincera como olhou, sentiu e experimentou tudo o que o universo teve para lhe oferecer.

 

Em Tânger com Jane e Truman Capote e Jane Bowles com Charifa

 

 

 

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publicado às 20:57



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