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por Oldfox, em 28.11.13

Mataram a Cotovia de Harper Lee

 

Imagem : Harper Lee com o seu grande amigo Gregory Peck que fez o papel de Atticus Finch no filme de  Robert Mulligan, de 1962.


Harper Lee (nasceu em 1926, em Monroeville, Alabama) é uma das escritoras mais amadas da Literatura americana apesar de, ao longo da sua já longa vida – tem agora oitenta e sete anos – ter publicado apenas alguns (muito poucos) contos e poemas dispersos por revistas e um único romance, este “Mataram a Cotovia”, o qual, juntamente com “Huckleberry Finn” de Mark Twain e principalmente com “À Espera no Centeio” de J.D. Salinger, forma uma trilogia de cariz iniciático para a maior parte dos jovens americanos – e não só.

A acção de “Mataram a Cotovia” inicia-se no Verão de 1933 e desenrola-se no rescaldo da Grande Depressão quando na América, mergulhada numa feroz recessão, qualquer incidente servia de rastilho para uma escalada de violência. Na sonolenta e escaldante Maycomb, um negro, Tom Robinson, é preso por ter supostamente violado uma mulher branca. Atticus Finch, um proeminente e respeitado advogado de uma antiga família da terra, homem de princípios morais irrepreensíveis e grande autoridade – Gregory Peck, no cinema e o pai da própria autora, na vida real – toma a si a responsabilidade de defender Tom. A decisão é pouco popular, dividindo a comunidade branca atrasada, ignorante e pobre – representada por Bob Ewell, o pai alcoólico e racista da jovem violada  – e a comunidade negra, não menos pobre, e constantemente vítima de abusos. Entre estes dois mundos tão diferentes, mas obrigados a conviver estreitamente em permanente tensão, surgem personagens como o próprio Atticus, como Dolphus Raymond, um homem rico que vive com uma negra e pretende ser um alcoólico para “justificar” a sua estreita confraternização com “o outro lado” ou como Calpurnia, a empregada (também) negra dos Finch, que prefiguram um novo estado de coisas, mais humano e mais justo. Atticus é o pai de Scout, uma menina curiosa e impetuosa, ( uma “maria-rapaz”, como a própria Lee) e de Jem que, com o estranho amigo Dill ( Truman Capote afirmou peremptoriamente que a autora se tinha baseado nele para criar esta personagem), forma o trio de crianças aventureiras e corajosas desta saga moral em que as “cotovias” são o símbolo dos pobres inocentes – tais como Tom – sacrificados no altar da intolerância e do preconceito.

“Mataram a Cotovia” foi publicado no Verão de 1960, uma altura em que, na sociedade americana, os ânimos estavam ao rubro na luta pelos Direitos Civis. O romance de Lee foi muito bem recebido – Prémio Pulitzer, adaptação cinematográfica, honrarias para a autora – porque retrata, com admirável claridade o tipo de personagens e conflitos universais facilmente reconhecíveis pelos leitores da altura: um homem sábio e corajoso, representante de uma nação que se queria mais liberal e justa, um xerife que cumpre a Lei, jovens impetuosos e criativos, (transformadores da sociedade), um marginal que todos supõem louco e as marcantes figuras das mulheres sulistas – que tanto podem ser “histéricas”, à maneira de Tennessee Williams, como resistentes matriarcas, geralmente negras, como as heroínas de Zora Neale Hurston.   

 “Mataram a Cotovia”, na sua singularidade, é não só uma história “(i)moral” - uma mistura explosiva de sexo, calor, racismo e crime, com um final dramático - mas também um romance de aventuras protagonizadas por Scout, Jem  e Dill, nas suas relações pungentes com o bizarro Boo Radley e a sua casa “assombrada”. O imaginário “gótico”, com os seus desastres e fantasmagorias – um fogo devastador, uma queda de neve anormal, um cão danado e uma noite de Halloween – prevalece, em múltiplas variantes, em autores sulistas como a popular Anne Rice ou a mais sofisticada e igualmente reclusa, Donna Tart. ( Espera-se para este ano o terceiro livro desta escritora que publica um romance em cada década – “A História Secreta”, em 1992, e o mais directamente influenciado por Lee, O Pequeno Amigo, em  2002).

Embora tenha revelado, numa das suas raras entrevistas, que “só queria ser a Jane Austen do Alabama”, Harper Lee não chegou a publicar – até agora – um segundo romance que, ao que se sabe, permanece inacabado. A sua amizade e estreita colaboração com Truman Capote, com quem se deslocou na célebre viagem a Holcomb para investigar o assassínio de uma família local tornou-se lendária e o material coligido por ambos acabou por ser publicado, primeiro no The New Yorker e, mais tarde, convertido no célebre “A Sangue Frio” de Capote, publicado em 1966.

Lee, uma purista da linguagem, eternamente crítica em relação ao “desleixo” de muitos autores seus contemporâneos, continua a considerar-se a grande discípula de Faulkner e uma admiradora de Updike. No entanto, é mais pertinente referi-la como a herdeira de Mark Twain, não só no que diz respeito à linguagem, ao ambiente e às personagens, como na que se refere aos temas e à forma como são abordados. Sem esquecer a ironia, Lee ressalva sempre o “instinto tribal” da importância da tradição oral que marca fortemente a “sua” literatura sulista, feita de contadores de histórias e de românticos aventureiros(as), defensores do Bem e opositores do Mal.  

Harper Lee afirmou que não sentia qualquer necessidade em continuar a escrever – embora, possivelmente o tenha feito toda a vida – uma vez que dissera tudo neste romance: um retrato fiel da América profunda com todos os preconceitos, hipocrisia, violência e irracionalidade que, ainda hoje, continuam a ser notícia.

 

“Mataram a Cotovia” Harper Lee, Ed. Relógio D ’Água, Tradução de Fernando Ferreira - Alves.

Publicado em Jornal Público, Suplemento Ípsilon, 2013

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publicado às 13:35



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