Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




por Oldfox, em 15.01.15

DORIS LESSING - O Sonho mais Doce

article-2508852-19788D6900000578-385_306x524.jpg

 

Os Crimes dos nossos Pais

 

“O Sonho mais Doce “ da britânica Doris Lessing, vencedora do Nobel de Literatura deste ano, devia vir com um aviso: “Este livro pode ser prejudicial para os nostálgicos da Revolução!”. Essa Revolução, que incendiou os ânimos nos anos sessenta e setenta é o tema deste romance que começa com os grandes movimentos europeus de rebelião do pós-guerra e termina nos finais do século XX. Devagar, numa narrativa que, a princípio, parece desfiar uma história banal de famílias imersas no brilho intenso dos amanhãs que cantam, a autora ajusta contas com a História. (Camaradas, companheiros unidos, cuidado com esta senhora que sabe do que fala).

Na nota introdutória, Lessing explica que este romance é uma alternativa ao terceiro volume da sua autobiografia - que não publica para “não magoar pessoas vulneráveis” - mas é óbvio que muitas das personagens são fac-similes das que atravessaram a sua vida, ou seja, a vida de Frances, o pivot desta “ficção“. É em torno desta mulher maternal, sólida - uma espécie de figura feminina primordial, uma mãe-terra – que revolteia a acção, por vezes caótica, do livro. É ela que acolhe, alimenta, dá apoio e protege todos os jovens que batem à porta da grande casa londrina com os seus múltiplos pisos, a sua glória fanada, a sua mesa farta e um sofá sempre pronto para os excedentários. A casa é da sua ex-sogra, Julia, uma alemã que casou com um inglês e que representa o passado com os fantasmas da Segunda Grande Guerra, isto é, a “herança nazi”, um facto que o seu próprio filho, o “camarada Johnny”, não se coíbe de recordar, principalmente quando ela lhe nega qualquer coisa. Johnny entrega-se, de alma e coração, aos deveres revolucionários pelo o que não pode perder tempo com assuntos burgueses - família, bens materiais, educação dos filhos, sofrimento psicológico - e repudia veementemente atitudes “fascistas” como as preocupações da ex-mulher e da mãe quanto à forma de gerir o orçamento familiar, fazendo desaguar, na grande casa, os “camaradas revolucionários da África Oriental”, jovens transviados, ex-mulheres e ex-enteadas. Chantageando e manipulando aqui e acolá, hostilizando os filhos e desapontando Frances - que está sempre à espera que ele contribua para a manutenção da família para poder dedicar-se à sua paixão, o teatro -  Johnny é quase uma figura cómica se não fosse tão pertinentemente nociva. (O seu egoísmo e cegueira é um reflexo da personalidade de Gottfried Lessing, o segundo marido da autora, um alemão que mais tarde foi embaixador da Alemanha Oriental no Uganda, onde foi assassinado, durante uma rebelião contra Idi Amin. Não pode passar despercebido, tão pouco, o facto de a própria escritora, quando jovem comunista no Zimbabué - antiga Rodésia, onde cresceu - tenha abandonado os filhos do primeiro casamento quando partiu para Londres, em 1949. )

Lessing, através de Frances, recorda esses tempos e as suas sequelas, a falta de dinheiro, a instabilidade, os trabalhos precários como jornalista, a pressão dos camaradas. “A vossa geração deve ser a mais arrogante e presunçosa que jamais existiu”, diz Colin, um dos filhos, exasperado com a “estupidez” do pai e com a permissividade da mãe. Na verdade, a casa onde cresce com o irmão Andrew e o resto dos pensionistas representa uma espécie de laboratório onde são chocados os ovos das serpentes: Rose, a frustrada e maldosa futura colunista de mexericos, Sophie, bela e inútil, Franklin, o jovem negro bem disposto que se torna um ditador corrupto à frente de Zimlia, um País cujas semelhanças com o Zimbabué não são coincidência, fazem parte de uma geração que gerou monstros;  é, também, o lugar onde é despejada a anoréctica Sylvia, a pomba, a criança etérea que se transforma em médica e parte para Zimlia, seguindo o seu caminho de mártir num lugar onde a Sida, a fome, o abandono, a cupidez, a paranóia e a corrupção grassam com devastadora rapidez.  

Assim, a segunda parte de “O Sonho…” é uma consequência da primeira e remete-nos para uma “actualização” do tema de “A Erva Canta”, o romance de estreia de Lessing, passado em África. É um relato doloroso e desencantado, que evoca magistralmente os efeitos do pós-colonialismo, a “grande farra” dos anos oitenta, a eclosão da Sida, o desamparo das populações e a hipocrisia do Ocidente. (Os gurus dos anos setenta transformaram-se em políticos influentes e desapiedados, em homens de negócios brutalmente ligados ao capital ou religiosos de uma qualquer seita). 

Quando publicou “The Golden Notebook” em 1962, Lessing, adepta e estudiosa do Sufismo, disse que o exercício da escrita lhe revelara que muitas das coisas em que ela pensava que acreditava não passavam de artifícios da sua própria mente e que a escrita tinha uma função curativa para o seu “eu” fragmentado pela desilusão com o comunismo, a rejeição emocional, a traição sexual, as ansiedades profissionais e as tensões entre amigos e familiares. Refere agora os horríveis sacrifícios que se fizeram em nome de utopias que degeneraram em abandono e conflitos sangrentos, utilizando a figura de Sylvia - um seu alter-ego redentor - para exemplificar o horrível desperdício das boas causas. Para uma mulher que foi educada numa escola católica na ex-Rodésia, (Mugabe também andou por lá) Lessing é de uma brutal franqueza quando diz que tem medo das religiões porque a sua capacidade assassina é aterradora. Ela sabe bem que a nova África foi (de)formada pelo cristianismo, pelo marxismo e pelas religiões primitivas animistas. Um cocktail explosivo e devastador que serviu os intentos de muitos dirigentes, barricados nas capitais e empenhados sobretudo em criar as suas vastas fortunas.

 Numa entrevista a um jornal americano disse que: “ olhando para trás… parece-me uma tragédia que nos tenhamos identificado com a União Soviética que era já, por definição, um falhanço com políticos corruptos que mentiam. Toda a esquerda estava sempre  a falar da União Soviética ou a defendê-la, o que a tornava conivente com esse falhanço. Na realidade, a União Soviética não tinha nada a ver connosco. Podíamos ter perseguido os nossos ideias na Europa, sem essa referência. Se tivéssemos agido dessa forma, o socialismo não estaria morto, como na realidade, está .“  Assim, a então jovem comunista fala com fúria dos ideais traídos; aquela que foi celebrada pelas feministas, desfaz à machadada, o feminismo; a adepta do amor livre, mostra agora as cicatrizes da aventura; a apoiante dos movimentos de libertação em África, não perdoa a corrupção que grassa entre os líderes do continente negro. “O Sonho Mais Doce” -  título surripiado a um verso de Robert Frost - venenoso, doloroso e arrasador, acabou há muito. 

 

Ed. Dom Quixote

Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:53



Um blogue da literatura, dos livros, dos leitores, dos editores, dos livreiros, dos alfarrabistas, dos desesperados, dos felizes e do que mais aprouver.

Mais sobre mim

foto do autor