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por Oldfox, em 29.01.15

J.M. Coetzee - "Verão"

 

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O droewige land! Oh, terra lúgubre!

Quem está familiarizado com a obra do escritor sul-africano J.M. Coetzee conhece bem as suas preocupações, obsessivamente recriadas de livro em livro: a defesa dos animais e do vegetarianismo, a dificuldade das relações entre homens e mulheres e o conflito severo e trágico com implicações linguísticas, rácicas, geracionais e territoriais, que mantém em relação à sua pátria de origem, a África do Sul. Em “Verão”, o último de uma trilogia “autobiográfica”, Coetzee, misterioso e cioso da sua privacidade, coloca-se no papel de morto, passando definitivamente à condição de personagem da sua própria ficção e imaginando-se como objecto da atenção de quem com ele privou mais de perto. Seria um exercício de puro narcisismo não fosse dar-se o caso de Coetzee ser um autor muito hábil que consegue a maior façanha de um escritor, o de iludir completamente o leitor, levando-o a segui-lo neste magistral embuste. Os factos descritos – embora surjam como entrevistas e notas de um tal Vincent que prepara uma biografia do famoso John Coetzee, referência da Literatura mundial, vencedor de um Nobel e de dois prémios Booker – parecem verídicos e correspondem aos dados que aparecem nas biografias “oficiais” do controverso autor. Embora ele já tenha feito uso de alter-egos –  “Elizabeth Costello” no livro do mesmo nome, o professor de “Desgraça”, o “senhor C.” de “Diário de um Mau Ano” – “ Verão”, tal como os anteriores “Infância” (“Boyhood” - 1997) e “Juventude” (Youth - 2002), é claramente autobiográfico. No entanto, como Coetzee (o autor) não é de fiar, principalmente quando faz de demiurgo, qualquer destas obras poderá ser enquadrada num género híbrido, numa espécie de ensaio sobre a autobiografia, visto que é impossível escamotear o facto de Coetzee ser, também, um extraordinário ensaísta e conhecedor profundo da Literatura universal: Kafka está sempre presente, principalmente quando se trata da utilização de uma bizarra ironia, bem como os grandes romancistas russos, como Tolstói, a quem foi buscar os títulos “Infância” e “Juventude” e a inspiração para livros como “Diário de Um Mau Ano” com ecos de “A Morte de Ivan Ilych”, e Dostoiévski, um autor que é, também, o tema central de “O Mestre de S. Petesburgo”. Nesta trilogia, tão pouco passa despercebida a referência a Flaubert – o subtítulo é “Cenas da Vida de Província” – com quem Coetzee partilha a misantropia e uma espécie de opacidade sentimental e afectiva que, no caso do escritor francês lhe valeu ser objecto do longo estudo (inacabado) de Sartre intitulado “O Idiota da Família”. (Esta referência vem a propósito porque é assim que Coetzee se retrata através do olhar dos outros, principalmente das mulheres). Assim, Vincent, na impossibilidade de recolher em primeira mão dados pessoais de um autor tão esquivo que só deixou para a posteridade, não um diário, não uma correspondência reveladora, mas apenas fragmentos e notas – o livro começa com extractos de “cadernos de apontamentos” datados de 1972-75 e acaba com outros tantos, “sem data” – regista os depoimentos de cinco pessoas que o conheceram: o da psicoterapeuta Júlia que em jovem manteve com ele uma relação, o da prima Margot cuja simpatia lhe inflamou a imaginação em criança, o da dançarina brasileira Adriana, objecto do seu interesse erótico (ou, pelo menos, ela assim pensa), os dos colegas académicos Martin e Sophie. Os seus testemunhos contrariam a admiração quase generalizada em relação a tão grande figura das Letras e do pensamento, fornecendo uma visão intrigante e tão retorcida como uma pintura de Francis Bacon. Se o olhar de Martin J. (cujas iniciais são as de Coetzee, ao contrário) é pouco revelador mas “objectivo”, o das mulheres traem sentimentos complexos que reflectem desconforto, incompreensão e até irritação em relação a esse homem hesitante, fechado e até medíocre, nada dotado como amante, como filho, como amigo, como professor, em permanente conflito moral, afectivo, familiar e político, lutando (em vão) para se reconciliar com a sua situação de branco africânder num País que ele considera marcado indelevelmente pelo colonialismo, o apartheid e uma falta de identidade que nem Nelson Mandela conseguiu resolver.

Coetzee tem a desfaçatez de fazer troça de si próprio, ao descrever-se através do olhar necessariamente incompleto e “corrompido” dos outros, jogando com a relação promíscua entre o autor e os seus personagens e confundindo para sempre a impossível realidade. O título, “Verão”, parece querer reflectir o tempo pujante da entrada na vida adulta mas o conteúdo nada tem de solar ou de lúdico. Para John Coetzee, a maturidade representa a aguda percepção da situação política, o fardo que é viver com o pai viúvo, a luta para escrever e a incapacidade para o amor. John Coetzee é uma figura trágica, um idealista que persegue utopias mas que se encontra, simultaneamente, paralisado pela razão, que lhe fornece a fria constatação de que nada é possível. Num livro que é essencialmente sobre o poder da escrita, fiquemo-nos com uma frase lapidar: “toda a autobiografia é outra-biografia ou a biografia de outrem. As definições de género como habitualmente são feitas por leitores comuns são totalmente primárias. “ John Maxwell Coetzee dixit.

 Verão, J.M. Coetzee, Ed. Dom Quixote,

Tradução de J. Teixeira de Aguilar

5*

Jornal Público, Lisboa, 2009

2012-04-23_0947.pngImagens de um jovem John M. Coetzee

 

 

 

 

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publicado às 14:05



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