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por Oldfox, em 12.02.15

Os paradoxos em CLÁUDIO E CONSTANTINO de Luísa Costa Gomes

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Regresso Infinito

" Podemos realmente começar antes de começar realmente?" - pergunta Constantino, à laia de introdução, nesta "novela rústica em paradoxos", como a define a autora. É uma variante da célebre fórmula "era uma vez" que funciona eternamente como ignição para a sucessão torrencial de histórias, aventuras, desmandos, sonhos e desassossegos, aqui protagonizados por dois irmãos, o impaciente e turbulento Constantino e o reflexivo e melancólico Cláudio. São rapazes à solta ( "a cavalar") numa grande casa que brilha na escuridão, num vasto campo, com uma alargada e amável família. Os preceptores sucedem-se -  lá mais para o final chega Orlando, mas só irá complicar a situação - a Mãe anda ocupada com o Bebé, o Pai está longe, o Avô e a Avó são gentis e divertidos, há um batalhão de Tias, a prima Florença toca piano e é demasiado bela para ser olhada e o cão Fortaleza, a cozinheira Escolástica, a criada Dulcínia - que gosta de meter medo com histórias de fantasmas - são outros tantos intervenientes neste relato sobrepovoado por figuras em tudo exemplares. Cláudio e Constantino discutem exaustiva e impertinentemente o que vêm, o que ouvem, o que sonham, o que fazem, o que é feito por outros e até o que não se ouve, o que não se vê, o que não se sente e o que não se faz. Esta prática continuada, num mundo que é um laboratório propício à investigação, começa com um episódio nada edificante: os irmãos decidem dar banho a um número indeterminado de pintos. Fazem-no com extremo cuidado, questionando a bondade do gesto, mas o resultado é a morte dos animais por afogamento. Este acidente desata os fios de um novelo feito de problemas intermináveis - "como é que boas intenções podem ter consequências terríveis?" ou, "porque é que Constantino não é castigado quando ele próprio exige ser castigado? -  que se vão desenrolando em paradoxos, dilemas, impasses e conflitos cada vez mais intrincados que desaguam em constantes "aporias", um termo que, na definição de Aristóteles, remete para a “igualdade de conclusões contraditórias", ou, na filosofia de Zenão de Eleia, está relacionado com juízos sobre a impossibilidade do movimento.  

É claro que o paradoxo tem, por si só, um efeito de extrema comicidade, plenamente conseguido em "Cláudio e Constantino". As histórias, que se sucedem ao ritmo das de "As Mil e Uma Noites", são deliciosamente divertidas e por vezes hilariantes. O cruzamento da grande erudição com a descrição de actividades comuns, como a labuta no campo ou os cuidados urgentes com um recém-nascido, a sucessão de personagens típicas das fábulas - a Criada, a Rapariga, os animais falantes, etc.  - as desvairadas aventuras, as personagens desarmantes - como a tia Eva que está escrever um livro sem fim, uma autobiografia que, evidentemente, não pode terminar  - compõem uma bem humorada e complexa narrativa, com imagens exuberantes e a afirmação dessa força superior que é a imaginação, constantemente movida pela curiosidade e pela inteligência.

Luísa Costa Gomes é uma autora com ligações profundas ao teatro e não é de admirar que o relato se desenrole numa sucessão de "cenas", com os protagonistas a entrarem para dizerem as suas deixas, para anunciarem factos, calamidades, acontecimentos banais ou intenções e a saírem dos cenários, muitas vezes chamados para outras tarefas, desviados dos seus intuitos, ou simplesmente removidos quando já não são necessários.

Em "Cláudio e Constantino" existe, ainda, uma óbvia homenagem a Lewis Carroll e às suas inumeráveis charadas, e a outros autores como Salman Rushdie, que tem usado o "encantamento" (fenómenos não explicáveis pelo exercício da Razão), por exemplo, em "Último Suspiro do Mouro" e em "A Feiticeira de Florença".  Os irmãos "viajam" nos sonhos - como em "Peter Pan" - o pai dos rapazes, que é da Marinha Mercante, anda no mar à procura da Ilha que Não Existe e a autora aproveita as regras dos navegantes para um exercício em torno do conceito de "Catch 22" como foi formulado pelo escritor Joseph Heller. Outras alusões importantes dizem respeito às célebres aventuras do Barão de Munchhausen - cruzar o espaço numa bala de canhão - às obras da Condessa de Ségur que, com as suas "Meninas Exemplares" e principalmente "Os Desastres de Sofia", certamente inspirou as figuras dos primos da América, os quais, de cada vez que chegam, num único e temido dia, destroem tudo, pelo que a família, durante essas vinte e quatro horas,  é obrigada a retirar todos os objectos, armazená-los  e substituí-los por cópias.

Discípula assumida de Voltaire -  a releitura de "Micromegas" é essencial - Luísa Costa Gomes utiliza a técnica dos diálogos platónicos, exactamente porque muitos deles são considerados aporéticos, isto é, inconclusivos, e retoma constantemente a questão da medida temporal. Em "Cláudio e Constantino" não é possível determinar o tempo histórico, cronológico. A acção pode passar-se em qualquer século - a imaginação, o sonho, os afectos, os devaneios não são atributo de um momento específico - mas uma referência ao uso da internet e de um telemóvel surgem como uma surpresa. Sabe-se que, no início, Cláudio tem oito anos e Constantino, doze; que crescem ao longo da história; que esse crescimento não corresponde necessariamente a uma progressão temporal; que é certo e sabido que o tempo tanto pára - como quando nos apaixonamos - como arranca à desfilada sem se deter; que tanto é líquido, como sólido, que escorre, se evapora ou se detém. No capítulo final, "Depois de Acabar", é apontada uma curiosa lista de referências usadas pela autora, oferecendo-nos pistas para um universo estranhamente familiar e consolador, apesar da auto-contradição permanente que nos obriga, alegremente, a ultrapassar incontáveis dificuldades, dúvidas e incertezas.

©Helena Vasconcelos. Texto publicado inicialmente em Jornal Público, Lisboa, Suplemento cultural Ípsilon, 2014

 

Cláudio e Constantino, Luísa Costa Gomes, ed. Dom Quixote.

autor_luisa_costa_gomes.jpgFotografia de Luísa Costa Gomes por Graça Sarsfield

 

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publicado às 13:39



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