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por Oldfox, em 19.08.11

COMUNIDADE de LEITORES, Culturgest, Lisboa



Imagem: Thalia, musa da Comédia, pormenor do sarcófago das Musas, Museu do Louvre, Paris
PROGRAMA
O RISO e o ESQUECIMENTO

É uma verdade universalmente conhecida que o riso faz parte das expressões mais profundas e sérias do ser humano e que a comédia – como um dos géneros classificados por Aristóteles na sua Poética – surge com força renovada nos mais terríveis momentos de crise política, social, individual. E se a função da Literatura era a mimesis, ou imitação da vida, a comédia ao invés (ou como complemento) da tragédia tinha, e continua a ter, a árdua tarefa de recriar a existência com elevação e solenidade, ao mesmo tempo que faz despertar o riso. A “comédia” nem sempre esteve ligada aos mesmos pressupostos – Dante chama à sua obra-prima A Comédia no sentido alegórico da cosmogonia medieval – mas Geoffrey Chaucer e Boccaccio foram mestres na criação (século XIV) de personagens cómicas em inusitadas peripécias com o propósito de recriar a farsa como espelho do mundo. Essas figuras-tipo – o frade, o médico, o mercador, a “esposa”, a freira, etc. – foram utilizadas por grandes dramaturgos como Molière e Lope de Veja e por autores como Eça de Queirós e Machado de Assis que se encarregaram de zurzir violentamente os seus contemporâneos. Quanto a Jacobson e Heller vão também buscar atributos tradicionalmente “cómicos” – a viuvez em "A Questão Finkler" e a ingenuidade em "Catch 22" – para demolirem, respectivamente, a sociedade inglesa, especialmente a judaica, e a loucura assassina da guerra. Recuando para a Inglaterra isabelina, onde se seguia a distinção clássica – as tragédias acabavam mal e as comédias tinham um final feliz – "Como vos Aprouver" de William Shakespeare é um exemplo perfeito da “alta comédia” pela forma refinada como são tratados os temas das mudanças de identidade e confusão de géneros. Os mal-entendidos são também o catalisador de toda a acção em "Ema", uma heroína com uma personalidade tão forte como a de Rosalind mas à qual Austen, com a sua capacidade para dizer sempre o contrário do que está implícito, atribui uma enorme falta de bom senso. A comédia é um género essencialmente democrático mas não deixa, por isso, de se revelar como indispensável. Os grandes tiranos, na sua solidão, sempre precisaram de um bobo para os obrigar a olhar a realidade do mundo, aquilo a que o filósofo Thomas Hobbes, referindo-se ao riso, chamou a “súbita glória” do ser humano.

Qui 22 de Setembro - Ema, Jane Austen, Ed. Europa-América

Qui 13 de Outubro, A Relíquia, Eça de Queirós, Porto Editora

Qui 3 de Novembro - A Questão Finkler, Howard Jacobson, Porto Editora

Qui 17 de Novembro- Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis, Ed. Dom Quixote

Qua 30 de Novembro - Catch 22, Joseph Heller, Ed. Dom Quixote

Qui 15 de Dezembro - Como vos Aprouver (As You Like It), William Shakespeare, Ed. Campo das Letras, 2008

Laughter is one of the most profound and serious expressions of the human being, and comedy tends to reappear with renewed vigour in times of individual, social and political crisis. As the reverse (or complement) of tragedy, comedy has the difficult task of recreating existence with dignity and solemnity, while still making people laugh. In literary terms, “comedy” is not always based on the same premises: it is an essentially democratic, but nonetheless indispensable genre, with laughter providing what Hobbes described as the “sudden glory” of the human being.

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publicado às 11:23


por Oldfox, em 07.08.11

Apontamentos sobre Shelley no dia do seu aniversário


Como poderia deixar passar o dia 4 e Agosto sem recordar Percy Bysshe Shelley, uma das personalidades mais carismáticas, impetuosas, generosas, belas e talentosas do Romantismo inglês?
Escrevi o seguinte sobre Shelley: ( para Conferências, Cascais, Museu Paula Rego, Maio, 2011)
"Aos 20 anos Percy Shelley ( que nasceu em Field Place, Horsham, a 4 de Agosto de 1792e morreu afogado, em Itália, no Mar Lígure, Golfo de Spezia, a 8 de Julho de 1822) já escrevia cartas indignadas, demonstrando o seu ódio pela tirania e pela injustiça e rebelando-se contra actos e leis que considerava indignos . Desde muito novo ligou profundamente a sua poesia ao activismo político e considerava um imperativo, como puro herói romântico que era, encontrar uma causa nobre pela qual pudesse lutar. Em 1813 já era anti-monarquia e um radical ardentíssimo. Tornou-se rapidamente uma figura de referência, depois de ter sido expulso de Oxford por causa de um panfleto – que escrevera com um amigo – sobre a “Necessidade do Ateísmo”. Mas o abandono de Oxford e a rejeição por parte da sua aristocrática família representaram um momento de viragem na sua vida.
Sobre Percy e Mary Shelley:
"Um encontro perfeito de espíritos e de inteligências - uma paixão, tão emotiva quanto intelectual, entre Percy Shelley (nasceu a 4 de Agosto de 1792) e Mary Shelley:
(Escrevi o seguinte sobre Shelley: ( para Conferências, Cascais, Museu Paula Rego, Maio, 2011)
"Shelley foi arrebatado pela inteligência de Mary – que ele considerava sua igual – e que comungava das suas ideias, incluindo o vegetarianismo. A relação íntima com os Godwin e a crescente paixão por Mary levaram Shelley a escrever o seu primeiro longo poema "Queen Mab: A Philosophical Poem". A rainha Mab, que aparece em Romeu e Julieta, é retomada por Shelley como uma ninfa que desce à terra para construir uma sociedade utópica futura, virando costas ao passado de opressão. Shelley escreveu o poema com o intuito de veicular as suas teorias revolucionárias que implicavam a necessidade de mudanças radicais que se operariam através da natureza e dos actos dos homens ( e mulheres)."
Já no exílio italiano , em 1819, Shelley escreveu “A Máscara da Anarquia”, poema na sequência do que ficou conhecido pelo Massacre de Peterloo, uma declaração política de protesto contra a cavalaria que carregou sobre uma multidão de 60 a 80 mil pessoas em Manchester – zona essencialmente industrial - que pediam representação parlamentar. (O nome foi posto num tom de ironia em relação a Waterloo, que acontecera quatro anos antes.) Shelley usa neste poema imagens grotescas para mostrar o lado trágico da força bruta contra pessoas indefesas e expressa a violência dos seus sentimentos de repulsa contra as forças dominantes. Com imagens muito fortes tinha a intenção de provocar nos leitores o mesmo que ele sentia: repugnância pela brutalidade das forças de repressão".
Os Shelley, os Byron e a "rede":
Foram todos para Itália: Keats, Byron, Claire Clairmont, Mary, Fanny Imlay, o médico de Byron, Polidori, a que se juntaram, mais tarde, Leigh Hunt e a família. Primeiro estiveram na Suiça.
(Em Conferências, Cascais, Museu Paula Rego, Maio, 2011):" O casal ( Mary e Percy) fugiu de Inglaterra em Julho de 1814. Mary tinha então dezasseis anos e estava grávida, aliás como Harriet, que continuava a ser a mulher legítima de Shelley. Perseguidos pelo escândalo e pela ira de Godwin (que apesar das suas teorias deixou de falar à filha durante anos), percorreram a Europa acompanhados da meia-irmã de Mary, Fanny Imlay. Finalmente estabeleceram-se na Suiça, nas margens do Lago Genéve.
No seu diário Mary conta que em fevereiro de 1815, nasceu-lhe uma menina prematura que ela a alimentou ao peito; que a sua meia irmã, Fanny, estava com eles; que Claire Clairmont entretinha Shelley; que Napoleão tinha invadido a Europa. Mas a bébé morreu em Março e este drama foi o primeiro de uma série de calamidades num ano particularmente difícil. Claire (Clairmont) que tinha seduzido Lord Byron, estava grávida . Byron fugira dela e deixara a Inglaterra a caminho da Suiça, perseguido também pelo escândalo da sua relação com Lady Caroline Lamb. No mês de Junho, de novo à espera de bébé, Mary começou a escrever Frankenstein. Em Outubro, Fanny Imlay suicidou-se ao saber que não era filha de Godwin mas sim de Mary Wollstonecraft e do seu amante americano. O seu corpo nem sequer foi reclamado por Godwin, sendo lançado na vala comum juntamente com os pobres anónimos de Londres. Em Dezembro, a mulher de Shelley, Harriet, depois de saber que também ela estava grávida de outro que não o marido, afogou-se na Serpentine. Já quase no fim do ano Shelley e Mary, relutantemente, casaram-se.
A opinião pública inglesa atacou-os violentamente, o que os fez exilarem-se em Itália onde parece terem sido felizes."

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publicado às 05:48


por Oldfox, em 02.08.11

Herman Melville


"Chamem-me Ismael". Penso em nomes como Queequeg, Ahab, Elijah, Tashtego, figuras criadas por Herman Melville que nasceu a 1 de Agosto de 1819 em Nova Iorque. (Morreu a 28 de Setembro, 1891). Em primeiro lugar devo dizer que é um dos escritores mais bonitos que eu conheço, rivalizando apenas com Samuel Beckett em "good looks". Depoi...s, gosto dele porque era um aventureiro, um viajante incansável e inquieto, algo que admiro num homem e num escritor. Passando a questões mais "profundas", toda a gente sabe que ele escreveu "Moby Dick" ( visão messiânica, Shakespeare, baleias, a Bíblia, Milton, um navio mítico, o Nantucket, "selvagens tatuados" e muito mais) que, apesar de ser um livro chato no início - muita gente não o lê todo, até porque logo na edição inglesa, de Peter Bentley , foi logo cortado o epílogo - muito falocrata e moralista, é, na realidade, um romance deslumbrante por todas as razões contrárias aquelas que são, normalmente , apontadas. Recorde-se que Melville aprendeu muito sobre as "Sperm Whales" com os arpoadores açorianos que viviam - os seus descendentes ainda vivem - na orla marítima americana, em New Bedford. E depois há "Bartleby, o Escriba: uma História de Wall Street" que é um conto/novela genial e "Benito Cereno", de que é raro falar-se. Ironicamente, o maior sucesso que Melville conheceu em vida foi por causa dos seus piores livros - "Typee" e "Omoo", por exemplo - e o melhor da sua obra só foi elevada à categoria de cânone, no século XX. Melville claro que morreu esquecido e abandonado à sua sorte mas hoje (quase) toda a gente o conhece.

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publicado às 08:10


por Oldfox, em 02.08.11

Emily Bronte


A 30 de Julho de 1818 - nasceu EMILY BRONTE, poetisa e escritora inglesa (m. 1848).
Algumas coisas que escrevi (e disse) sobre ela no Museu Paula Rego, ao comparar "O Monte dos Vendavais com "Frankenstein" de Mary Shelley.
"É sempre com espanto que releio “O Monte dos Vendavais” (1847) esse romance apocalíptico e demoníaco, tendo em mente que a autora, quando o escreveu, era uma jovem de vinte e tal anos que pouco conhecia do mundo e parece nunca ter experimentado uma paixão amorosa. É claro que - tal como Frankenstein não é somente uma história de arrepiar mas sim uma “fantasia enigmática de horror metafísico” - o "Monte dos Vendavais" não é apenas uma história de amores contrariados mas sim um “romance enigmático de uma paixão metafísica”. Mary Shelley produziu um texto “masculino” em que as figuras femininas se encontram obviamente dependentes de figuras masculinas heróicas – e anti-heróicas - enquanto Emily Brontë criou um universo onde mulheres de espírito indomável e independente desafiam constantemente os homens. No entanto, ambos os romances seguem um padrão de narrativas concêntricas, ambos possuem histórias dentro da história, ambos colocam uma ênfase forte na sorte de órfãos e de mendigos. Não é por acaso que tanto Mary Shelley como as irmãs Brontë viveram sem as mães respectivas e colocaram essa condição de orfandade de uma forma obsessiva, nos seus livros."
Imagem: retrato de Emily Brontë pelo seu irmão Branwell Brontë.

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publicado às 08:02


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