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por Oldfox, em 09.07.13

Nelson Mandela - de novo na prisão.


Penso muito em Nelson Mandela. É uma injustiça nada poética que um verdadeiro guerreiro, um príncipe Thembu, um Madiba, esteja agora, no fim da vida, novamente preso. Preso, não num lugar com paredes e arame farpado, onde lutou, pensou, reagiu, liderou e de onde conseguiu libertar-se, mas encarcerado, isso sim, no seu próprio corpo indefeso. É claro que no momento em que o deixarem partir, um coro de boas e caridosas vozes, em todo o mundo, se levantará, citando milhares das suas frases – algumas nem serão dele, como sempre acontece – mas poucos seguirão o seu exemplo: ser valente, resistir, lutar, manter a dignidade, defender intransigentemente ideais mesmo que sejam difíceis de concretizar. E saber conviver com a imutável querela humana, dando o exemplo e apaziguando os extremistas.

Recordo que Mandela esteve preso em Robben Island – sujeito a trabalhos forçados e em condições terríveis – entre 1962 e 1982. Foi transferido para a Pollsmoor Prison em Tokay, Cape Town, onde permaneceu mais seis anos. Na sequência de uma tuberculose foi transferido, em Dezembro de 1988, para a Victor Vester Prison, perto de Paarl e finalmente libertado em 1990.

Gandhi, Mandela, Martin Luther King e Obama têm sido os políticos, os activistas que mais me ajudam a viver – curiosamente, são todos homens, nenhum deles é branco ou europeu, o que, para mim, quer dizer muito.

Felizmente, que nenhum deles foi (é) um santo imaculado.Há quem exija que homens e mulheres, cujas vidas são exaltantes e inspiradoras, sejam também obrigados a não errar nunca, o que é impossível. Quem pensa que tal acontece ou é ingénuo ou fanático. Gandhi conseguiu acabar com a ocupação inglesa mas não uniu os indianos nem remediou as desigualdades no seu País; Nelson Mandela acabou com o apartheid mas não com a violência na África do Sul nem com desigualdades tão gritantes como as da Índia. Martin Luther King foi uma figura decisiva na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos da América mas não era um ser sem defeitos. ( Gandhi e King foram assassinados, lembram-se?) E Obama é claro que não transformou os EUA num paraíso. Mas quem tem o descaramento de lançar a primeira pedra?

Gandhi, Mandela, King, Obama lutaram muito para chegar onde chegaram, contra todas as hipóteses, que o seu tempo e as condições sociais e políticas respectivas impunham, sem aparente possibilidade de mudança. Penso muitas vezes nestas pessoas que conseguiram o impossível. Nós, por cá, nem conseguimos o "possível"!

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publicado às 19:00


1 comentário

De Anónimo a 09.07.2013 às 19:36

A realidade da morte é a mesma coisa que a realidade da vida. A vida aconteceu. Termina com a chegada da morte. E uma pessoa de quase 95 anos, seja ela quem seja, viveu já uma longa vida. Contudo, nem que vivesse trezentos anos a saudade que deixa ao partir, é uma saudade irremediável, injusta e cruel. Que dói, que esmaga, que espanta. E os nossos são sempre amados, adorados. Referindo-me aos “nossos”, não só os da nossa família, os nossos amigos, mas também aqueles inesquecíveis seres da humanidade que se revelaram, absolutamente, excepcionais, que fizeram acreditar durante toda uma vida que o homem é inexplicável, uma estrela de longínquo brilho e mistério. Lembro-me hoje, ontem e agora de NELSON MANDELA e de todo o seu percurso histórico, inacreditável e irrepetível. Como me lembro, nos lembramos de tantos outros homens e mulheres com percursos de vida igualmente históricos e inacreditáveis e irrepetíveis.
Foi um homem poderoso. Foi um símbolo moral. Resistiu até ao limite. Todo o planeta Terra lhe deve reconhecimento e respeito.

Cristina Carvalho

LÁGRIMA DE PRETA

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterelizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

ANTÓNIO GEDEÃO

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