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por Oldfox, em 27.07.13

Crónicas - LITERATURA e ARTE

A publicação de um novo livro sobre os múltiplos sinais, pistas, charadas, mensagens inscritas e significado do extraordinário quadro de Hans Holbein, the Younger  “Os Embaixadores” ( 1533, National Gallery, London) continua a saga de incontáveis curiosos que se interrogam e esquadrinham as obras de arte para nelas tentar encontrar algo que forneça algum sentido às nossas perplexidades, espantos e medos. (Uma das últimas interpretações de “Os Embaixadores” “explica” a catastrófica crise económica e financeira que estamos a viver neste momento, algo que certamente será um espantoso isco para os Dan Brown deste mundo). “Os Embaixadores” é apenas uma entre muitas representações que escondem segredos, segredos esses que sempre exerceram um enorme fascínio sobre as mentes inquietas. Repare-se em toda a polémica gerada pela "Mona Lisa" e por outras obras de Leonardo da Vinci (como "A Virgem dos Rochedos”), pelo retrato do casal Arnolfini de Jan van Eyck ou, ainda,  pela família de Filipe IV pintada por Diego Velázquez, um quadro mais conhecido por  “As Meninas”.

Se estes e outros exemplos demonstram o poder da Arte – não só no que diz respeito à pintura mas também a todas as suas outras manifestações – a ligação ente Arte e Literatura ( próximo tema de uma Comunidade de leitores que irei liderar em Cascais ) é particularmente aliciante.


”Em “O Livro da Confissão”, um romance do irlandês John Banville, o narrador e personagem principal, Frederick Montgomery é um “connaisseur” requintado, bem-falante e sedutor cavalheiro, um snob que, lamentavelmente, é também um assassino; tudo porque se perde de amores por um determinado quadro e se vê compelido a matar a mulher que o apanha em flagrante delito, no momento do roubo. Em “Golpe de Mestre” Michael Frayn , escritor inglês, congemina uma deliciosa sátira cuja acção se desenvolve em torno da paixão desenfreada e da obsessão compulsiva em relação a uma obra de arte: Martin, o protagonista, descobre durante o jantar na casa de campo de um horrível casal, que marido e mulher – a seu ver totalmente desinteressantes, ignorantes e “básicos”-  possuem (aquilo que lhe parece ser) um Brueghel, há muito desaparecido. Sem querer alertar os legítimos donos para a importância do objecto – arrumado a um canto, sujo e desprezado – Martin, um respeitável filósofo, perde a compostura e leva a cabo uma série de ardis para roubar o quadro, incluindo o de fingir um interesse amoroso pela sensual dona da casa que o arrasta para um implausível romance. Em “A Dívida ao Prazer”, John Lanchester – outro inglês - cria  um tal Tarquínio Winot, mestre culinário e misterioso psicopata. Tarquínio, para além de perorar em relação à comida – pretexto para as mais elaboradas cogitações sobre a “impostura” da criação artística, sobre a relação entre jardinagem e padrões de ideologia estética e sobre a estreita ligação entre alimentação e política – tem ideias bem definidas, embora complexas, sobre o que é “arte” – ele próprio é “uma obra de arte” – e sobre o estatuto de génio.

Estes são alguns exemplos – haveria muitos mais, incluindo essa obra–prima sobre a perigosa complexidade da representação que é “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde – da relação entre a Literatura e a Arte. O facto de serem aqui mencionados não se deve à muito equívoca sedução exercida por criminosos quando se escondem por detrás do álibi da sua “paixão” mas sim para recolocar a questão antiquíssima: até onde poderá ir o artista e, posteriormente, o coleccionador? O que é válido ou/e “aceitável”? Os pensamentos, palavras e obras convocadas por essa paixão que se apodera das pessoas – das que fazem Arte e das que a desfrutam – em relação a uma pintura, uma escultura, uma fotografia, um filme, um vídeo, etc. são fruto de que desejo, de que ansiedade, de que “fome”? 

Cabe aqui, obviamente, recorrer a António Damásio, o neuro-cientista que tem estudado exaustivamente o cérebro humano, em toda a sua complexidade e magnificência e, em particular, o papel que as emoções desempenham na criação artística. Ele afirma que a força criativa provém da imaginação, sendo esta, “uma manipulação de imagens visuais, auditivas, tácteis ou olfactivas que alguém capta em determinado momento ou que vai buscar ao armazém de memórias” E acrescenta: “um grande artista ou inventor é aquele (ou aquela) que consegue usar a emoção para utilizar essas imagens – tanto as que se passam no mundo exterior como as que são produzidas e transformadas por um estado emocional – de uma forma extremamente rica.” 

A  Arte, secularizada há muito e definitivamente liberta de constrangimentos canónicos, está, para além do ímpeto de criar, estritamente ligada ao desejo da “posse” de um determinado objecto dito artístico, desejo esse tão premente e inflamado que pode assemelhar-se à experiência de uma poderosa relação erótica. Calouste Gulbenkian, Peggy Guggenheim, os Rothschild, os Thyssen-Bornemisza, foram provavelmente alguns dos mais impetuosos e implacáveis  coleccionadores entre muitos dos que, ao contrário destes, escondem cautelosamente o seu vício.

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publicado às 14:30



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