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por Oldfox, em 04.08.13

Pratique a Leitura - LOLITA

"Lolita ou A Confissão de um Viúvo de Raça Branca", de Vladimir Nabokov, conhece agora uma reedição em português com uma excelente tradução de Margarida Vale de Gato que também assina um interessantíssimo Posfácio.

Passei muito tempo da minha vida às voltas com este romance e incluí-o várias vezes nas listas das Comunidades de Leitores. Dediquei um capítulo a Lolita no meu livro "A Infância é um Território Desconhecido", (Ed. Quetzal, Lisboa) e tenho andado a escrever sobre Lolita e a sua "antípoda", Daisy Miller.  

Aliás, Nabokov e Henry James ocupam uma parte substancial do meu tempo de leitura.

Há uns anos, numa conferência em Cascais sobre literatura inglesa e americana – convidada, ainda, pelo meu muito saudoso amigo Eduardo Prado Coelho –  falei sobre estas personagens, como elas são muito mais do que instrumentos nas mãos dos seus criadores, ganhando vida própria na nossa imaginação e na nossa vivência.

Consta do texto, publicado em Acta, o seguinte:

"Este “avanço” em relação às características de uma heroína – de Catherine (Sloper, a heroína de "Washington Square" de Henry James ) para Isabel Archer (heroína de "The Portrait of a Lady" do mesmo James) – é uma ideia que irá vingar na Literatura. Mais do que a lânguida Daisy ( Buchanan ) é Jordan Baker, a desportista, jovem e dinâmica, ainda que desonesta (no “Great Gatsby”) que preconiza, tal como Isabel Archer a ideia da América como uma pátria construtora de personalidades cheias de energia e vitalizadoras para quem, no velho continente (Europa), procura uma espécie de elixir da juventude, de excitante recomeço. Este conceito de beleza ligado à energia juvenil, à sexualidade e à criatividade tem perdurado, embora o romance contemporâneo se dedique com mais incidência à perda de inocência cada vez mais cedo e à crueldade dos jovens.

Essa América extremamente jovem – e também imatura – “sexy”, caprichosa e fascinante está perfeitamente personificada na ninfeta Lolita, criação do famoso escritor russo-americano, Vladimir Nabokov. A menina, que enfeitiça o europeu Humbert Humbert até ao crime, é por ele possuída – literal e metaforicamente – como umaforma de “agarrar” ( violando, tomando como presa) uma projecção da infânciae de darlargas a uma sinistra nostalgia da belezae juventudeque o arrasta para as maiores perfídias. Essa “luz” incandescente (em torno da qual as mariposas queimam as suas asas na linguagem fitzgeraldeana ) é aquela que o próprio Fitzgerald, Hemingway , James e Wharton levaram para a Europa. Nabokov fez o percurso contrário, naturalmente, e imprimiu uma nova dinâmica – alguns chamar-lhe-ão perversa – ao “glamour” ofuscante que o precedera, juntando a marca indelével da imagem – o cinema na literatura –e a nostalgia deum outro paraíso, em que liberdade é sinónimo de fora-da-lei, na viagem pela América dos dois amantes amaldiçoados."


Imagens: Uma da capa e outra do filme do mesmo nome de Stanley Kubrick, 1962

 

 

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publicado às 15:03


1 comentário

De Anónimo a 04.08.2013 às 20:39

Uma recensão, uma apreciação, uma crítica, um texto (que é uma coisa indefinida de quem não sabe bem o que há-de chamar ao que escreveu...), seja o que fôr, escrito por ti, apresenta uma qualidade insuperável.

A excelência da crítica.

Cristina Carvalho

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