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por Oldfox, em 09.09.13

J.D. Salinger: modo de usar

A comoção com que tem sido recebida a biografia de J.D. Salinger - "Salinger," escrita por David Shields e Shane Salerno - e a perturbadora promessa de edições de inéditos a partir de 2015, vem mesmo a propósito da re-leitura de "À Espera no Centeio", primeira obra do novo ciclo da minha Comunidade de Leitores na Culturgest em Lisboa. (19 Setembro, 2013, às 18:30, inscrições na www.culturgest.pt ).

Aproveito para recuperar um texto meu, publicado no Ípsilon - Jornal Público, Lisboa - sobre esta mesma obra: 

 

J.D. Salinger. Definitivamente fora deste mundo

 

Jerome David Salinger, o escritor recluso e anti-social, contista e autor de “À Procura no Centeio” (1951), romance iniciático e autobiográfico, morreu com 91 anos a 27 de Janeiro último (2010). Apesar do cerco que os jornalistas, estudiosos ou simples curiosos lhe fizeram durante décadas, nunca abdicou do seu “direito de não ser famoso”. O mistério que rodeou a sua vida prestou-se a grandes especulações: para uns era uma espécie de Tolstói do século XX, um eremita excêntrico que terá deixado uma obra vasta e (ainda) desconhecida; para outros foi um homem doente, psicótico e bloqueado intelectual e literariamente. Uma coisa é certa: todo o “corpus” da sua obra conhecida é simplesmente genial. Falta saber se os seus inúmeros admiradores terão a sorte de, em breve, virem a descobrir o que ele não desejou que o mundo conhecesse.

 

*****

Ainda hoje, certos visitantes de Manhattan procuram o bar do Hotel Seton para tomarem uma bebida, e o Edmont Hotel ou o Clube de Jazz do Ernie em Greenwich Village para aventuras mais excitantes ou, ainda, perguntam para onde foram os patos do lago ao sul de Central Parque, seguindo um roteiro que retraça os passos de Holden Caulfield, o herói de dezasseis anos de “À Procura no Centeio”. Enquanto cruzam Manhattan em velhos e mal cheirosos táxis, recordam o seu olhar excitado quando regressa à cidade e desembarca na Penn Station, se dirige para uma cabine telefónica – sem saber para quem ligar – e se lança numa delirante travessia da cidade palpitante, trepidante e tão misteriosa como um parque de diversões nocturno. Expulso do colégio por fraco desempenho académico, este herdeiro directo de Huckleberry Finn, este Stephen Dedalus adolescente, com a sua voz ininterrupta, caustica, zombeteira e trocista que não poupa ninguém – nem ele próprio – tornou-se um símbolo do rapaz “cool”, independente, audaz e divertido, que desconfia dos adultos e tenta encontrar-se a si mesmo, embora a solidão, a alienação e a angústia acabem por levar a melhor. ( “Alguma vez te sentiste farta de tudo?” pergunta Caulfield a Sally, uma das miúdas que ele persegue incessantemente sem grandes resultados práticos em termos de façanhas eróticas).     

O autor deste livro de culto, miraculosamente conservado em estado de graça até aos nossos dias, nasceu em Nova Iorque a 1 de Janeiro de 1919 de pai judeu e mãe de ascendência escocesa e irlandesa. À medida que os negócios de Sol Salinger prosperavam a família mudou-se do Harlem para a Rua 82  e mais tarde para um confortável apartamento Upper East Side, onde o jovem Sonny, como era conhecido na altura, e a sua irmã Doris cresceram. Salinger foi um aluno medíocre e, tal como Caulfield, “pensou em ir para Oeste” mas acabou por entrar para a Academia Militar de Valley Forge, modelo para a escola de Holden, a Pencey Prep, e onde, tal como o seu herói, foi monitor de esgrima e editor do jornal da escola, Crossed Swords. Mais tarde, a passagem pela New York University não lhe provocou entusiasmo nem tão pouco apreciou o esforço que o pai fez para o integrar nos negócios da família, nem mesmo quando o levou à Europa, em 1937. O ambiente na Áustria não podia ser mais sombrio e Salinger regressou rapidamente a Nova Iorque decidido a ser escritor e a produzir “o grande romance americano” como tantos outros, antes e depois dele. Em 1941, depois de várias tentativas fracassadas, conseguiu finalmente publicar uma história na mítica revista New Yorker, “Slight Rebellion Off Madison,” o primeiro esboço de “À Procura no Centeio”. Mas enquanto os seus contos percorriam o habitual circuito editorial nova-iorquino, Salinger foi chamado para a Guerra e despachado para a Europa onde foi integrado nos serviços de espionagem especializados na caça aos nazis. ( De notar a estranha semelhança com o tema do mais recente filme de Tarantino). Mais tarde esteve envolvido no desembarque dos Aliados e na batalha de Bulge o que lhe deixou marcas psicológicas tão profundas que, de volta aos Estados Unidos, foi internado por sofrer de “fadiga de guerra”, aquilo a que hoje chamamos “stress pós traumático”. É possível que esta doença tenha sido uma das causas do seu subsequente afastamento da vida pública e não deixa de ser irónico que ele tenha desejado o sucesso como escritor e o tenha obtido, em doses maciças, com a publicação, em 1951, de “À Espera no Centeio” e do conto “A Perfect Day for Bananafish”, uma história totalmente diferente, austera e sombria. A sua reputação de autor original e rebelde foi reforçada com os contos dedicados à família Glass que publicou em seguida e que apareceram em formato de livro, em 1961, com o título “Franny e Zoey”, uma obra que Salinger dedicou ao seu amigo e companheiro agorafóbico, William Shawn, editor da New Yorker.   

Gerald Rosen em Zen in the Art of J. D. Salinger ( 1977) observou que “Franny e Zoey” pode ser interpretado como um conto Zen moderno, uma história em que as personagens – principalmente Franny – se vão desenvolvendo psicologicamente, passando de um estado de ignorância para um de iluminação. Os Glass, pai, mãe e sete brilhantes crianças e adolescentes tornaram-se extremamente populares à medida que as suas aventuras eram publicadas e o seu dia-a-dia acompanhado – ainda na New Yorker – por dedicados leitores que apreciavam a crítica social seca e irónica dessa época de conformismo e laxismo. Enquanto a Guerra Fria se enraizava e na América imperava o extremo patriotismo, Salinger, o eterno rebelde, virou-se para as filosofias orientais e para os contos do folclore russo, dando voz às suas personagens que discutiam religião e misticismo, educação, intelectualismo, sucesso e fama. Quando o volume de contos “Nine Stories” foi publicado em 1953, o autor parecia imparável, cada vez mais admirado e adulado. Anos mais tarde um crítico do New York Times afirmou que” muito raramente na história da literatura terá havido um punhado de contos que suscitasse tanta discussão, controvérsia, elogios, denúncias, mistificações e interpretações”.

Depois, subitamente, tudo mudou. Houve um penoso romance fracassado com a filha de Eugene O’Neil, Oona O’Neill – futura mulher de Charlie Chaplin – e Salinger, o atraente e rico judeu intelectual de Manhattan, decidiu retirar-se para Cornish, no New Hampshire. Já tinha sido casado por alguns meses com uma médica alemã durante a guerra, mas divorciara-se e desposou Claire Douglas de quem teve dois filhos, mas o casamento não durou muito. 

Salinger passou a esquivar-se a todos os contactos sociais e profissionais embora tenha sido capa da revista Time em 1961 e se encontrasse regularmente com Shawn em Nova Iorque, evitando sempre a “mesa redonda” no Hotel Algonquin onde se reunia a nata da vida literária. Numa das raras declarações para a imprensa, em 1974, quando tentava impedir a publicação de algumas histórias inéditas, afirmou que o “ próprio acto de publicar (constituía) uma terrível invasão da sua privacidade”. Em 1984, quando o crítico literário britânico Ian Hamilton levou avante a escrita de uma biografia não autorizada, Salinger processou-o e ganhou. (Recorde-se que em Junho de 2009 o autor sueco Fredrik Colting viu o seu livro, uma sequela de “À Procura no Centeio”, suspenso indefinidamente depois do veredicto de um tribunal federal.)

Mas o golpe mais duro para Salinger aconteceu quando a escritora Joyce Maynard publicou, em 1998, “At Home in The World” (um título ironicamente desafiador, contraponto da afirmação do escritor de que “estava neste mundo mas não pertencia a este mundo”), no qual descrevia minuciosamente os dez meses em que viveram juntos, em 1973.

Joyce, uma talentosa e anoréctica caloira de Yale tinha escrito um artigo para o New York Times intitulado “Uma Jovem de Dezoito Anos Recorda a Sua Vida Passada”. Salinger, quebrando o seu distanciamento, escreveu-lhe uma carta a dar-lhe os parabéns. Continuaram a trocar correspondência cada vez mais inflamada e, finalmente, Joyce, apareceu-lhe à porta de casa. No início, a ligação foi “intoxicante” e Salinger mostrou-se um homem apaixonado, vibrante e cheio de ideias. Mas Maynard cedo descobriu que o escritor era abusivo e manipulador, tinha hábitos alimentares estranhos – ervilhas congeladas ao pequeno-almoço, hambúrgueres crus de cordeiro ao jantar – era hipocondríaco e paranóico, mantinha uma admiração secreta pelas mais absurdas manifestações da cultura popular – incluindo talk –shows – e a vida sexual de ambos tornou-se um pesadelo. Ela tinha 18 anos, parecia ter 12, ele já contava 53 e a meio de uma viagem à Florida, o escritor mandou-a subitamente embora, alegando que ela queria aproveitar-se da sua fama. Em 2000, uma nova vaga de revelações, agitou o meio literário. Margaret, a filha de Salinger publicou as suas Memórias onde retratava o pai como um ser patologicamente egoísta e violento, obsessivo em relação à sua dieta, à homeopatia, ao Budismo Zen, ao Hinduísmo, e à Cientologia. Contou, ainda que o pai bebia a própria urina e se fechava durante horas numa caixa contendo energia orgónica.

Idiossincrasias à parte, a escrita de Salinger é inimitável e inultrapassável em originalidade, tendo influenciado profundamente autores como John Updike, ( “Rabbit” deve muito a Caulfield) Philip Roth, Harold Brodkey, Jay McInnerney e Brett Easton Ellis, entre muitos outros. Salinger estava absolutamente convencido de que os escritores vendiam a alma ao diabo ao se deixarem corromper pela fama e pela lisonja, duas forças que ele considerava absolutamente destrutivas, tão arrasadoras quanto a vaidade que, para ele, invalidava a capacidade de julgar. A sua amiga de longa data Lillian Ross – lendária jornalista da New Yorker e companheira de Shawn – conta que Salinger gostava de repetir uma citação de Emerson: “Um homem tem que ter tias e primos, tem que comprar cenouras e nabos, tem que construir celeiros e abrigos, tem que ir ao mercado e ao ferreiro, tem que mandriar e dormir, tem que ser inferior e idiota”, acrescentando que os escritores tinham dificuldade em reconhecer a sua humanidade e eram “incapazes de comprar nabos ou cenouras”.  

Este sentido crítico em relação aos seus pares seria uma forma de mascarar a sua própria incapacidade para escrever? Se realmente existem volumes de contos sobre a família Glass como tem sido avançado, para que serviriam fechados em caixas, no New Hampshire? (Recorde-se que o último trabalho de Salinger a aparecer foi “Hapworth 16,1924,”, uma longa história que ocupou quase por completo a edição de 19 de Junho de 1965 da New Yorker) 

Será finalmente agora, com Salinger morto, que a “arca” do tesouro será revelada? Irá o seu público, aquele que se revê em Holden Caulfield, deleitar-se com a escrita que ele tão zelosamente guardou? Ou será confrontado com os vestígios da vida solitária e desperdiçada de um homem que, um dia, escreveu um livro cujo título – inspirado num poema de Robert Burns – remete para uma juventude inquieta que precisava de ser “salva” das errâncias em campos de centeio, longe de qualquer olhar protector.


 

 

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publicado às 15:42



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