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por Oldfox, em 14.10.13

SAUL BELLOW e "As Aventuras de Augie March"


Chicago Blues

 

Foi preciso um judeu, filho de imigrantes russos, nascido em Lachine, Quebéque no Canadá, e transplantado para Chicago, para que o grande romance americano do século XX ganhasse um novo fôlego. A história de Augie March, passada no período entre os anos 20-40 do século XX – com a eclosão de grandes fortunas e a subsequente Grande Depressão – é um testemunho da grandeza e da mestria de Saul Bellow o qual, aos 38 anos, munido de todas as armas de que dispunha, se lançou a relatar as errâncias de um rapaz que se torna homem num espaço fértil, produtivo e monstruoso, tanto para o amor, as boas causas e as melhores intenções, como para os negócios escuros, as traições e o crime. Na primeira frase do romance Augie March apresenta-se, não pelo nome próprio – como acontece em “Moby Dick” com a famosa invectiva “Chamem-me Ismael” – mas sim como “americano, nascido em Chicago…”, marcando desta forma a sua especificidade. É verdade que estes dois atributos são os que determinam o seu destino num universo repleto de gente traiçoeira e manipuladora ( Bellow começou por chamar ao seu romance “Vida entre os Maquiavélicos”), gente essa que ele defronta com habilidade e bravura, até mesmo com verve e doses maciças de chutzpah  .

Augie pertence a uma lista de heróis, de Tom Jones (o seu “irmão” mais dilecto) a Harry Potter, passando por Pip, Oliver Twist, Huckleberry Finn, Heathcliff e muitos outros, para quem a orfandade é um trunfo que lhes abre a porta para infinitas possibilidades. É verdade que Augie começa por falar na família, no tempo em que é ainda um rapaz de calções a fazer recados e a esgueirar-se pelos quintais; mas o pai abandonou-os, a mãe está cega, um dos irmãos é autista (o mais velho, Simon, é uma versão dele próprio com a vantagem de alguns anos) e a temível “avó” Lausch não está ligada a eles por qualquer parentesco, embora seja determinante – pela negativa – na sua “formação”. Com os seus rígidos princípios de educação aristocrática – que incluem defraudar a Segurança Social – a kaltblütig senhora representa o Velho Mundo, hipócrita e matreiro, feito de sonhos de grandeza fanada e de recordações de tenebrosas travessias atlânticas. Augie não quer saber dessa herança de pogroms e de mansões abandonadas – embora regresse à Europa, no fim do livro – e persegue destemidamente os ditames do seu “eu” profundo, fruto de um espírito comum – o americano – e de uma cidade, Chicago, a sua verdadeira mãe, protectora, educadora e provedora. 

Apesar do seu olhar cristalino, March não é inocente e está perfeitamente à vontade na companhia de gangsters e de marginais, nesse submundo de uma metrópole generosa que lhe oferece, também, o vislumbre da riqueza e do poder, nem que seja pelas frestas que dão para a rua, na cave dos Armazéns onde, a certa altura, trabalha. Mas a inquietação de Augie, que o leva a pular de emprego em emprego, de amigo em amigo, de paixão em paixão, o seu perpétuo movimento de aceitação e confronto de, e com, aqueles com quem se relaciona, são uma garantia de independência num universo fervilhante a abarrotar de uma “multidão bíblica” – judeus oriundos do Leste europeu, italianos, irlandeses, ingleses, russos, mexicanos, alemães – que se afirma como uma verdadeira família. O seu habitat natural é a rua, que lhe facilita os movimentos de um lado para o outro, entre estações, bares, antros de bilhar, apartamentos sombrios, barbeiros, vãos de escadas, agências de apostas e traseiras de prédios.

Bellow, um admirável estilista da linguagem, não deixa escapar nenhum pormenor: descreve, com uma insistência quase erótica, o crescimento de March, a forma como os seus membros se distendem, como as suas passadas se tornam mais firmes, como os seus músculos se desenvolvem, como o seu olhar endurece, como a sua postura se agiliza e liberta. Ficamos a saber como ele ouve, cheira, sente, vê, tacteia, como se veste (com as roupas cada vez mais elegantes, fornecidas pela senhora Renling) e como se apaixona. Saul Bellow foi sempre um fervoroso apreciador compulsivo de listas – de objectos, de acções, de adjectivos, de lugares, de nomes, de sensações – que desfia, entrelaçadas na narrativa, criando uma imagem poderosa de abundância, de grandeza e desperdício, nesse caos que resiste alegremente a qualquer tentativa de ordem. 

O ritmo “jazzístico” de Bellow impõe-se a cada momento, quando descreve os movimentos de Augie, a velocidade da cidade, o frenesim do acto amoroso, o troar do tráfego, o zumbido das máquinas, a excitação das apostas, as subidas e descidas na Bolsa e essa incomparável capacidade do povo americano para se reinventar a cada momento, mudando de nome, de lugar, de emprego, explorando ao máximo um território vasto e fecundo.  

Críticos de reconhecida competência têm comparado, ao longo dos anos, Augie March a Tom Sawyer e a Huckleberry Finn, referindo a chamada “literatura de fronteira”, embora essa etiqueta seja mais apropriada quando aplicada a autores como James Fenimore Cooper ou, mais recentemente, Larry McMurtry e Cormac McCarthy. É claro que Bellow escolheu o título, “As Aventuras de Augie March”, com um propósito específico mas o que ele pretende – e consegue – é demarcar-se de um certo traço cru e violento desse vago género literário, utilizando personagens mais complexas e subtis do que as de Mark Twain e um estilo narrativo que se aproxima mais da poesia de Walt Whitman.  Bellow poderá eventualmente ser comparado a Twain pela veia cómica que partilham, mas Augie está bem mais próximo de Holden Caulfield de “À Espera no Centeio” ( J. D. Salinger publicou o seu best-seller dois anos antes do de Bellow) e de Jay Gatsby, embora o herói de Scott Fitzgerald seja uma personagem trágica, alguém que nunca chega a pertencer a um lugar, a uma paixão, a um meio social, enquanto que Augie March, por contraste,  navega com subtileza e desenvoltura no grande caldo da identidade americana.  Bellow chamou a este seu romance, uma “narrativa expansiva, optimista, exuberante e celebratória” e é possível que Augie seja tão semelhante ao seu autor como duas gotas de água: a mesma substância, a mesma composição química, em formas variadas de acordo com o espaço, o tempo e a inclinação. “As Aventuras de Augie March” é, sem dúvida, uma longa ode à liberdade, a transpirar de energia por todos os poros, com um herói que se deixa arrastar pelo mundo que o rodeia, sempre com a esperança de que os acidentes de percurso o empurrem para um destino melhor. 

 

.(Uma menção ao trabalho do tradutor: embora haja sempre a possibilidade de discutir uma ou outra escolha de palavras ou de expressões, o resultado não poderia ser melhor. A dificuldade em verter Bellow para outras línguas é enorme; no entanto, aqui, a sua voz, o seu ritmo e a sua especificidade não se perdem.)

 

As Aventuras de Augie March, Saul Bellow, Ed. Quetzal, Tradução de Salvato Telles de Menezes

Texto publicado no suplemento Ípsilon do jornal Público, Lisboa.

 

 




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publicado às 18:20



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