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por Oldfox, em 15.10.13

Agustina Bessa-Luís - 91 anos

AGUSTINA 


 

Quantos mundos cabem no universo de Agustina? Na sua extensa e variada obra, a escritora criou uma galáxia de personagens e lugares, de emoções e sensações, de ímpetos e desejos que a tornam única e, evidentemente, imprescindível para a compreensão da nossa identidade e da nossa cultura. Ao longo de mais de cinco décadas, construiu sem parar as suas histórias onde é possível, como acontece com todos os grandes autores, ver espelhada toda a humanidade. Senhora de uma capacidade invejável para a criação de tramas numa linguagem torrencial e vertiginosa, Agustina arrasta-nos pelas paisagens férteis do Douro, pelas ruas e traseiras dos prédios do Porto, pelas salas, corredores e recantos das casas rurais ou citadinas, acompanhando homens e mulheres, fortes e fracos, fiéis e desleais, a braços com o tumulto do mundo. Porque, se Agustina parece desejar a manutenção de um estado de coisas mais ou menos fechado, num ambiente tradicional e conservador – nas famílias, nas terras, na política, nas relações – a verdade é que ela conhece bem a impossibilidade de evitar a desordem amorosa, a decadência física e moral e o ímpeto da Natureza que criam o caos e perturbam a quietude desejada. 

 

As Artes de Agustina:

Haverá poucos escritores portugueses em cuja obra seja tão estreita a relação entre a palavra e a imagem como no caso de Agustina. Realizadores de cinema como Manoel de Oliveira e João Botelho compreenderam bem o potencial das luxuriantes descrições das paisagens – interiores e exteriores – da vida dos objectos, do evoluir das personagens que abundam nos seus livros, tendo transposto para o ecrã essa complexa teia. Mas se Agustina “dá a ver” através da escrita, ela é, também, uma observadora curiosa e atenta. A sua cumplicidade com Maria Helena Vieira da Silva ficou registada em “Longos Dias Têm Cem Anos” e o fascínio por Rembrandt deu origem a “A Ronda da Noite” com o seu inquietante mistério. A atracção pelo palco, o imaginário infantil, a crónica e o ensaio são outras tantas Artes de Agustina.

 

Homens e Mulheres em Agustina:

A sua galeria de personagens masculinas e femininas – a que se deve acrescentar a de alguns animais emblemáticos – rivaliza com as de Camilo Castelo Brando e Eça de Queirós, para nomear apenas dois dos nossos grandes escritores. Seja no amor, na dança erótica, nas batalhas sem tréguas, nas cumplicidades e alianças entre os representantes dos dois sexos, seja nos mínimos detalhes da vida familiar, Agustina não deixa de introduzir pormenores inquietantes e desafios complexos. É através das suas figuras femininas e masculinas, de todas as idades, que Agustina define um sistema de valores que rege um universo aparentemente rígido. Mas a força imanente e telúrica do lado feminino e o exercício da vontade do lado masculino estabelecem um desequilíbrio constante e perigoso.  

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Agustina e as Relações de Poder:

Em Agustina, nada é pacífico. Por essa razão não admira que a busca e exercício do poder seja um dos temas mais fascinantes da sua obra. E, uma vez que o poder se adquire através da luta, há inúmeras batalhas nos seus romances e Biografias romanceadas: lutas entre mulheres e homens, entre pais e filhos(as), entre classes – a da aristocracia rural nortenha, a da burguesia portuense, a dos senhores e dos criados. Agustina é uma mulher que não descura o exercício da política – daí o fascínio por figuras como o Marquês de Pombal (em “Sebastião José”) e como Francisco de Sá Carneiro (em “Os Meninos de Oiro”) para dar só dois exemplos – e sabe bem como os seres humanos atravessam a vida esgrimindo agilmente todas as possibilidades de dominação.

 

Os Aforismos de Agustina:

Dada a complexidade dos aforismos de Agustina a sua leitura transforma-se numa resolução de charadas. Mais do que provérbios, ditados ou sentenças em torno de temas que vão do amor à morte, do desejo às virtudes, do sofrimento à felicidade, estas frases lacónicas e cortantes, aproximam-se da reflexão filosófica e fazem as vezes de revelações ditas por um oráculo esclarecido e visionário. Um aforismo pode ser sibilino, luminoso, pacífico ou escandaloso. Agustina dá-nos a provar o sabor de todos eles. 

 

 

 

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publicado às 16:23



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