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por Oldfox, em 16.10.13

ALICE MUNRO - O Mundo das Mulheres

Alice Munro ganhou o Prémio Nobel, 2013. Vem a propósito republicar um texto sobre uma das suas colecções de Contos, "O Amor de Uma Boa Mulher".


 

 


 Existem sempre inúmeras mulheres, de todas as idades e feitios, nos contos da escritora canadiana Alice Munro, nascida na província de Ontário, em 1931. Os estudos de género debruçam-se com aplicação sobre as suas personagens de mães, filhas, irmãs, amigas, companheiras, primas, vizinhas e amantes que enchem páginas e páginas com as suas acções, os seus sobressaltos e ansiedades, num mundo acolhedor e caseiro mas por vezes sombrio, onde os gestos habituais podem bem esconder pensamentos pouco recomendáveis. É em torno destas figuras femininas que tudo gravita, incluindo os homens que se limitam a segui-las ou a abandoná-las, a amá-las e a desejá-las, a ignorá-las ou a imporem a sua presença. No universo das mulheres tudo fervilha e crepita e elas, como abelhas diligentes, como formigas cumpridoras ou como alegres cigarras, ocupam-se dos filhos e das casas, são provedoras do conforto – mas também causadoras de incómodos – gerem conflitos e defendem interesses, entre porcelanas, molhos de menta, livros, bolos, móveis descarnados, águas de colónia, roupa interior, flores, abraços, lágrimas e hospitalidade transbordante. Ao ocuparem um lugar tão central, elas são sempre as personagens verdadeiramente interessantes, cheias de complexidade e segredos, adúlteras e por vezes psicóticas, plenas de malícia e de mau-humor, apaixonadas, violentas e ternas. 

Ao longo de mais de meio século, Alice Munro tem persistido nas suas narrativas perfeitamente buriladas sobre as relações entre os membros de famílias aparentemente banais, no ambiente semi-rural que a viu nascer. A tensão e as clivagens, que se espalham como uma epidemia entre as personagens, remetem-nos para Raymond Carver e Anton Chekhov, principalmente naquilo que sugerem em termos de “brevidade e ansiedade”, numa escrita minimalista e cortante mas extremamente rica na construção de ambientes e descrição de detalhes.
Alice Munro começou a escrever ainda na adolescência e, ao longo dos anos, os seus contos adquiriram um estatuto de singularidade, tendo sido considerados como os mais interessantes e bem conseguidos da literatura contemporânea, ao lado dos da norte-americana Jayne Anne Phillips e seguindo a tradição da grande Flannery O’Connor, a quem Munro presta um óbvio tributo, muito evidenciado no conto “Salvo o Segador” que recupera o famoso “Um Homem bom é difícil de encontrar”, essa “jóia da coroa” da autora sulista, que desenvolveu com perícia o género gótico-grotesco muito utilizado, também, por Faulkner e Carson McCullers. No entanto, e apesar de, em Munro, se encontrar uma forte componente de “espírito do lugar” e uma vaga tensão ameaçadora, as história de “O Amor de Uma Boa Mulher” reflectem uma realidade diferente, talvez menos acerba ou carregada da angústia violentamente católica de O’Connor mas igualmente complexa e surpreendente.
Na história que dá o título ao livro, três rapazes correm e brincam juntos. Em casa têm vidas, famílias e atmosferas diferentes mas, na rua, são livres e sentem-se poderosos. Um dia, encontram um cadáver dentro de um carro abandonado e não sabem como agir. Nada comunicam à Polícia e vão para casa almoçar. Esta hesitação torna-se o pretexto para a autora nos enredar numa teia de afectos e cumplicidades, segredos e “coisas que ficam por dizer “, pesadelos e mentiras. Este, tal como a maior parte dos outros contos, passa-se nos anos 50, num tempo de grandes mudanças, quando – pelo menos em relação às mulheres – se vivia numa época que “estava no fim, embora (as pessoas) ainda o não soubessem”, como diz a “pequena noiva” em “A Ilha de Cortés”, a jovem que acaba por ficar fascinada com o mistério que envolve a vida dos vizinhos do andar de cima e os segredos de um fogo de consequências fatais.
Em “As Crianças Ficam”, uma família passa férias na Ilha de Vancouver. Tudo parece correr bem, é Verão, as filhas brincam felizes na praia, mas Pauline, a mãe que se sente aprisionada no casamento, só pensa no amante, o director de um teatro local e acaba por partir – como Anna Karenina e Madame Bovary – deixando tudo para trás, preocupada apenas em “seguir em frente e habituar-se, até que seja só o passado a doer e não o presente, seja ele qual for”. Em “O Sonho da Minha Mãe”, um feroz nevão transforma a percepção das coisas e uma mulher tenta lembrar-se onde deixou um bebé “lá fora, durante a noite”, enquanto este pesadelo se confunde com a morte do marido. Em “Jacarta” duas amigas travam uma guerra fria, feita de mal entendidos e sugestões ácidas e, em “Podre de Rica”, mãe e filha confrontam-se violentamente num abismo de solidão.
As histórias de Munro, embora estreitamente relacionadas com a sua geração, possuem uma espécie de atmosfera intemporal e sonhadora. São meditações – de onde não está ausente um certo espanto ligado a um sentido de humor bastante subtil e quase desesperado – em torno das mutações constantes e eternas tanto na sociedade como no lugar mais íntimo do pensamento e das emoções de cada ser humano, com os seus anseios e lutas e, principalmente com as suas incomensuráveis faltas.

O Amor de Uma Boa Mulher, Alice Munro
Ed. Relógio D’Água
Tradução José Miguel Silva


Nota: Este texto foi publicado no Jornal Público, Lisboa, no Suplemento Cultural Ípsilon

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publicado às 19:51



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