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por Oldfox, em 19.11.13

"O Sonho Mais Doce" de Doris Lessing

 

 

Os Crimes dos Nossos Pais

 

 

 

"O Sonho mais Doce" (2001), da britânica Doris Lessing, vencedora do Nobel de Literatura em 2007, devia vir com um aviso: "este livro pode ser prejudicial para os nostálgicos da Revolução! ". 

 

Essa mesma Revolução, que incendiou os ânimos nos anos sessenta e setenta, é o tema deste romance que começa com os grandes movimentos europeus de rebelião do pós-guerra e termina nos finais do século XX. Lentamente, ao longo de uma narrativa que, a princípio, parece desfiar uma história banal de famílias imersas no brilho intenso dos amanhãs que cantam, a autora ajusta contas com a História. (Camaradas, companheiros unidos, cuidado. Porque esta senhora  sabe do que fala).

 

Na nota introdutória, Lessing explica que este livro é uma alternativa ao terceiro volume da sua autobiografia - que ela não publica para não magoar  "pessoas vulneráveis"  - mas é óbvio que muitas das suas personagens são baseadas em figuras que marcaram a sua vida. Frances, muito parecida com a autora, é  central nesta "ficção" que gira em torno de uma mulher maternal, sólida e que é uma espécie de figura feminina primordial, uma "mãe-terra" que se debate na, por vezes caótica, acção do livro. É ela que acolhe, alimenta, dá apoio e protege todos os jovens que batem à porta da grande casa londrina com os seus múltiplos pisos, a sua glória fanada, a sua mesa farta e um sofá sempre pronto para os excedentários que não têm onde ficar. A casa é da sua ex-sogra, Julia, uma alemã que casou com um inglês - com quem Frances mantém uma relação crispada e eventualmente cúmplice - e que representa o passado e os fantasmas da Segunda Grande Guerra, isto é, a  herança nazi, um facto que o seu próprio filho, o  camarada Johnny , não se coíbe de recordar, principalmente quando ela lhe nega qualquer coisa. Johnny entrega-se, de alma e coração, aos deveres revolucionários pelo o que não pode perder tempo com assuntos burgueses, tais como a família, os bens materiais, as tarefas quotidianas. O mesmo Johnny que aparece ocasionalmente na casa para comer ou dormir e que congrega à sua volta os entusiásticos jovens que vêm nele uma espécie de guru, enquanto os próprios filhos e as ex-mulheres são sujeitos a desprendidas torturas psicológicas. 

 

Johnny repudia veementemente atitudes "fascistas"  como as preocupações da ex-mulher e da mãe quanto à forma de gerir o orçamento familiar, fazendo desaguar, na grande casa, os  camaradas revolucionários da África Oriental , jovens transviados, ex-mulheres e ex-enteadas assim como a anoréctica Sylvia, a pomba, a criança etérea que se metamorfoseia em médica e parte para a fictícia Zimlia, seguindo o seu caminho de mártir num lugar onde a Sida, a fome, o abandono, a cupidez, a paranóia e a corrupção grassam, com devastadora rapidez. Entretanto , Johnny, chantageando e manipulando aqui e acolá, hostilizando os filhos e desapontando Frances - que está sempre á espera que ele contribua para a manutenção da família para poder dedicar-se à sua paixão, o teatro - é quase uma figura cómica se não fosse tão pertinentemente nociva. (O seu egoísmo e cegueira são um reflexo da personalidade de Gottfried Lessing, o segundo marido da autora, um alemão que, mais tarde, foi embaixador da Alemanha Oriental no Uganda, onde foi assassinado, durante uma rebelião contra Idi Amin. Não pode passar despercebido, tão pouco, o facto de a própria escritora, quando jovem comunista no Zimbabué  ter abandonado os filhos do primeiro casamento quando partiu para Londres, em 1949.)

 

Doris Lessing, através de Frances, recorda esses tempos e as suas sequelas, a falta de dinheiro, a instabilidade, os trabalhos precários como jornalista, a pressão dos camaradas.  "A vossa geração deve ser a mais arrogante e presunçosa que jamais existiu"  diz Colin, um dos filhos, exasperado com a  estupidez  do pai e com a permissividade da mãe. Na verdade, a casa onde cresce com o irmão Andrew e o resto dos pensionistas representa uma espécie de laboratório onde são chocados como ovos das serpentes: Rose, a frustrada e maldosa futura colunista de mexericos, Sophie, bela e inútil, Franklin, o jovem negro bem disposto que se torna um ditador corrupto à frente de Zimlia, um País cujas semelhanças com o Zimbabué não são uma coincidência. 

 

 

 

Assim, a segunda parte de  "O Sonho Mais Doce" é uma consequência da primeira e remete-nos para uma  actualização  do tema de  "A Erva Canta" (1950), o romance de estreia de Lessing passado em África, um relato doloroso e desencantado, que evoca magistralmente os efeitos do pós-colonialismo, a  grande farra dos anos oitenta, o eclodir da Sida, o desamparo das populações e a hipocrisia do Ocidente. (Os gurus dos anos setenta transformaram-se em políticos influentes e desapiedados, em homens de negócios brutalmente ligados ao capital ou em religiosos de uma qualquer seita).

 

Quando publicou "The Golden Notebook ", em 1962, Lessing, adepta e estudiosa do Sufismo, católica durante um curto espaço de tempo, disse que o exercício da escrita lhe revelara que muitas das coisas em que ela pensava que acreditava não passavam de artifícios da sua própria mente e que a escrita tinha uma função curativa para o seu  "eu",  fragmentado pela desilusão com o comunismo, a rejeição emocional, a traição sexual, as ansiedades profissionais e as tensões entre amigos e familiares. Refere os horríveis sacrifícios que se fizeram em nome de utopias que degeneraram em abandono e conflitos sangrentos, utilizando a figura de Sylvia - um seu alter-ego redentor - para exemplificar o triste desperdício das boas causas. Para uma mulher que foi educada numa escola católica em Salisbúria (hoje, Harare), onde também estudou Mugabe, Lessing é de uma brutal franqueza quando diz que tem medo das religiões porque a sua capacidade assassina é aterradora. Ela sabe bem que a nova África foi (de)formada pelo cristianismo, pelo marxismo, pelo islamismo e pelas religiões primitivas animistas, um cocktail explosivo e devastador que serviu os intentos de muitos dirigentes, barricados nas capitais e empenhados sobretudo em construir as suas vastas fortunas.

 

Numa entrevista a um jornal americano, Lessing disse o seguinte:" olhando para trás  parece-me uma tragédia que nos tenhamos identificado com a União Soviética que era, já por definição, um falhanço,  povoado de políticos corruptos que mentiam. Toda a esquerda estava sempre a falar da União Soviética ou a defendê-la, o que a tornou conivente com esse falhanço. Na realidade, a União Soviética nuca teve nada a ver connosco. Podíamos ter perseguido os nossos ideias na Europa, sem essa referência. Se tivéssemos agido dessa forma, o socialismo não estaria morto, como na realidade, está." Desta forma, a então jovem comunista fala com frieza dos ideais traídos, aquela que foi celebrada pelas feministas desfaz à machadada, o feminismo, a adepta do amor livre mostra, agora, as dolorosas cicatrizes da aventura, a apoiante dos movimentos de libertação em África não perdoa a corrupção que grassa entre os líderes do continente negro.  O Sonho Mais Doce , venenoso, doloroso e arrasador, transformou-se num pesadelo.

 

 Ed. Dom Quixote, Lisboa

 

Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues




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publicado às 18:12



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