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por Oldfox, em 18.04.14

A Autobiografia de Gabriel Garcia Márquez

 

Nota : A morte de Gabriel García Márquez levou-me a publicar, de novo, o texto que escrevi sobre ele, em 2003.

 

Um dos mais famosos colombianos de sempre, o escritor Gabriel Garcia Márquez, galardoado com o Nobel em 1982, está a escrever a sua autobiografia. O primeiro volume saiu agora em Portugal.

"Viver para contá-la", Gabriel Garcia Márquez 579 págs. - Edição D. Quixote, Lisboa, 2003 - com um pequeno volume, "Gabo, Memórias da Memória" de Carlos Fuentes.

 

 

O CONTADOR DE HISTÓRIAS E O SEU LABIRINTO

 

Helena Vasconcelos - 2003


Segundo as notícias mais recentes, o problema da Colômbia, onde as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, cerca de 20000 homens e mulheres financiados pelas drogas e pelos sequestros) continuam a sua senda de violência, parece irresolúvel. Estima-se que as Farc arrecadem um lucro de 700 milhões de dólares por ano só com o narcotráfico o que lhes permite alargar as suas actividades, confinadas durante anos às zonas rurais, e avançar para as cidades – bombas e carros armadilhados recentemente numa discoteca e num bairro junto ao aeroporto de Bogotá fizeram dezenas de mortos. O conflito colombiano dura há quarenta anos e é de uma complexidade assustadora, alimentado pela posição ambígua dos Estados Unidos e outros países como o Brasil. É esta a pátria de Gabriel Garcia Márquez, um dos mais conhecidos escritores do século XX, o homem que fez sonhar milhões com a história de Macondo, uma aldeia perdida no tempo que serve de cenário a “Cem Anos de Solidão”, a sua obra-prima. O mais famoso colombiano de sempre – se exceptuarmos, por razões diferentes, o infame Pedro Escobar que, aliás, serviu de matéria prima para “Notícias de um Sequestro” a história escrita em tom jornalístico sobre o então mais poderoso traficante de droga – ganhou um prémio Nobel da Literatura em 1982, fez de Macondo um local tão mítico como o “Yoknapatawpha” de Faulkner, colocou definitivamente no mapa da literatura mundial o conceito de “realismo mágico” (partilhado com Carlos Fuentes, Alejo Carpentier, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Isabel Allende, etc.) e continuou, ao longo da vida, a tomar partido vigorosamente à esquerda, embora os seus amigos insistam que ele é apenas um contador de histórias pouco ortodoxo. Márquez representa magistralmente a própria Colômbia – um país de uma beleza natural inaudita, intelectualmente sofisticado, com uma sociedade ancorada solidamente em laços familiares e também um dos lugares mais perigosos do mundo. As imagens que serviram de manancial para o universo fantástico que alimentam os seus livros são tão violentas como a história do seu próprio País, dado a lutas fratricidas e onde o negócio da droga é tanto um meio de exploração por parte dos ricos como forma de subsistência (precária) dos pobres. Quando Gabo ou Gabito, (como é chamado) nasceu em Aracataca, uma pequena localidade da costa caribenha, a 6 de Março de 1927, a comunidade vivia o trauma da recessão provocada pelo fim do “boom” da exploração bananeira pela empresa americana United Fruit Company e falava-se de um número impreciso de mortos – “entre 3 a 3.000” – quando, em 1928, o exército disparou indiscriminadamente sobre os trabalhadores em greve e respectivas famílias, reunidos na praça principal em protesto. Foi esta história, contada de mil maneiras diferentes pelo avô – uma figura determinante na formação do jovem aspirante a escritor - que se juntou a muitas outras numa terra sem futuro onde o calor, os mosquitos, as chuvas torrenciais, os ventos tempestuosos, a lama e as condições precárias de vida eram compensadas com relatos de acontecimentos fantásticos e miraculosos. Gabo, o mais velho de onze irmãos, passou os primeiros oito anos de vida nesse lugar, continuamente cruzado por forasteiros e marcado pelo “espírito de evasão perpétua”. Foi criado pelos avós, uma vez que os pais viviam longe, em Barranquilla, onde o pai tentava ganhar a vida com negócios mal sucedidos. Longe desses problemas Gabo cresceu com as histórias das tias, da avó, das criadas e, principalmente, à sombra da figura do avô que fugira para aquele recanto perdido do mundo, perseguido pela culpa de ter matado um homem em duelo em Riohacha. Com uma personalidade forte, o coronel Nicolas Ricardo Márquez Mejía tinha uma reputação de combatente valoroso nas guerras civis entre liberais a conservadores e Gabriel venerou sempre esse homem de espírito aberto que lhe mostrou o mundo sem restrições, “como se ele fosse um adulto” e lhe proporcionou o gosto pela observação das pessoas e uma curiosidade sem pejo perante a vida. Único homem num mundo de mulheres, era tratado como um rei e o neto seguiu-lhe as pisadas, deixando-se mimar nesse recanto onde a verdadeira matriarca era a avó, senhora de muitos recursos e capaz de uma ternura tão marcante como determinada, que aceitava com resignação heróica – registava-os com os nomes e apelidos numa caderneta – os múltiplos filhos que o coronel fazia pelo mundo.
Aos oito anos perdeu esse amigo e companheiro e teve de ir para Barranquilla viver com os pais que eram, para ele, perfeitos desconhecidos. Todas essas transformações inscreveram-se profundamente na mente do jovem tímido e curioso que começou a sua carreira no jornalismo e se tornou famoso do dia para a noite com “Cem Anos de Solidão”, (1967) um romance tão poderoso que funcionou como brecha profunda na literatura tradicional americana e como pedra basilar de um novo género que vem dando frutos até hoje em várias línguas e culturas como se se tratasse de uma espécie de vírus contagioso. Aliás, esta ideia de “doença” que se propaga, de peste, é recorrente em toda a obra de Márquez que já fez referência a este facto em várias entrevistas. “As epidemias são perigos imponderáveis que surpreendem as pessoas. Possuem uma característica de destino” afirmou ele, ao mesmo tempo que falava das suas leituras preferidas sobre o assunto, de “Édipo, Rei” ao “Diário do Ano da Peste” de Daniel Defoe, passando, é claro por “A Peste” de Camus, um livro que parece estar cada vez mais actual. Para Márquez, tanto o amor como ódio, são “pestes” que se espalham de forma errática e podem “infectar” qualquer pessoa, por muito protegida que esteja. A (provável) tuberculose que vitimou Simon Bolívar, a mordedura de cão raivoso em Sierva Maria de Todos los Angeles em “Do Amor e Outros Demónios”, a cólera e outras terríveis enfermidades têm lugar cativo no seu universo onde, por outro lado, as personagens possuem, também, uma capacidade de sobrevivência tenaz e exemplar.
A sua história e a da sua família estão indelevelmente inscritas nos seus romances com as “mágoas, saudades, incertezas, na solidão de uma casa imensa”, o seu lugar da infância. Quando publicou “Amor em Tempo de Cólera” contou que parte da narrativa se inspirara na forma como os seus próprios pais se tinham conhecido e amado. O pai era um rádio-telegrafista sedutor que tocava violino, um facto que atraiu a atenção da sua mãe, uma menina de boas famílias que se opunha ao namoro com um rapaz pobre e com ideias contrárias. Mandaram-na para uma escola bem longe mas os amantes continuaram a comunicar por telegrama e acabaram por casar. Este fim feliz não entra no romance onde os amantes, separados na juventude, só se encontram finalmente aos oitenta anos com a paixão ainda intacta mas corroída pelo tempo. Aliás, o tema da idade como factor de sabedoria em relação ao dilema entre fidelidade e plenitude sexual domina muitas das suas narrativas, a par de outros confrontos tais como a necessidade de romance versus a estabilidade familiar, o desejo de liberdade versus a vontade do compromisso. Mas quem pensa encontrar uma resposta a estas questões ficará decerto desiludido, uma vez que "Gabo" mantém um estado de perplexidade face a problemas tão antigos como o próprio homem. 
Estas figuras ideais que movem montanhas levaram-no a escrever também sobre o herói caribanho Simon Bolivar, o homem que sonhou com uma América Latina unida e autónoma, senhora do seu destino e das suas riquezas mas que acabou por ser derrotado pelo caciquismo e ignorância que ele queria tanto combater, morrendo na Colômbia em 1830 - muito perto do lugar onde nasceu Marquez -  desiludido com o separatismo que grassava nas suas hostes libertadoras e anti- hispânicas. O falhanço de Bolívar e dos seus sonhos parecem servir de base à desmotivação de Márquez em relação ao seu país e à própria América Latina que ele, na juventude, sonhou ver unificada à sombra dos grandes ideais socialistas. Márquez em “O General e o seu Labirinto” explorou com eficácia as contradições do carácter de Bolívar que, tal como ele próprio, oscilava entre um idealismo quixotesco e demasiado teatral e um terrível derrotismo que o levava a proclamar a falta de propósito da existência ao mesmo tempo que incitava os seus seguidores a prosseguir em campanhas vãs que atraíram a cólera de muitos dos seus seguidores. O seu ideal de “uma só nação unida desde o México até ao Cabo Horn”, os delírios de glória, a mistura febril de esperança com certezas de fracasso, são maravilhosamente descritas por Marquez que foi duramente criticado por aqueles que preferem a imagem de um Bolívar europeizado e sofisticado a um homem de sangue mestiço, preso na rede das suas próprias contradições, assombrado por memórias, dado a praguejar e definitivamente arrumado aos 49 anos, mas fielmente acompanhado da sua amante Manuela Sáenz que, por mais de uma vez, o livrou de perigos e atentados.

Márquez passou mais de dez anos a anunciar as suas memórias, cujo primeiro volume é agora publicado em português. O que salta imediatamente à vista é que , ao contar a sua própria história, o autor não se afasta do universo mítico das suas obras e, pelo contrário, entretece ambos numa trama tão cerrada que se torna impossível separar a realidade da ficção. O próprio Gabriel, numa entrevista que deu em Barcelona, nos finais dos anos noventa, explicou que fenómenos aparentemente inexplicáveis não podem ser encarados com um espírito de burocracia científica: “ Tive de viver vinte anos e escrever quatro livros que funcionaram como aprendizagem até descobrir que a solução se encontrava na origem do problema: eu tinha de contar a história, simplesmente, como os meus avós a haviam contado, num tom imperturbável, com uma serenidade perante a evidência que não mudava nem mesmo quando o mundo lhes estava a cair em cima e sem duvidar nem por um momento do que estava a dizer, mesmo que fosse o mais fútil ou truculento, como se aquelas duas pessoas de idade tivessem percebido que em literatura nada é mais convincente do que a própria convicção.”
Assim, a passagem do tempo nada altera perante essa “imperturbabilidade” - Márquez sustenta a ideia de que qualquer construção linguística é uma ficção - que se apresenta como uma inevitabilidade cuja fluidez atravessa os acontecimentos. Como fez notar o crítico Alastair Reid , “embora o seu método não pudesse estar mais afastado do de Borges, a sua forma é, de certa forma “borgesiana” uma vez que ele é, dentro do conceito de Borges, um ”ficcionero”, um fazedor de ficções.” A ficção fornece o espaço que se distancia da realidade, algo que Márquez trabalha em pleno, deliciando-se na construção de uma abundância de imagens que , por vezes, quase sufocam o leitor com a sua exuberância extravagante.
“Viver para Contá-la” – o primeiro de três volumes de memórias que cobrem aproximadamente o espaço de trinta anos, desde o nascimento do autor em 1927 até meados dos anos cinquenta, quando ele parte pela primeira vez para a Europa – foca principalmente a forma como ele se tornou escritor, o como e o porquê da sua vocação. Jovem estouvado e impetuoso vive precariamente do trabalho como jornalista em publicações variadas e permanentemente em crise. A mãe surge um dia no café boémio onde ele se junta com os amigos para o levar com ela a Aracara no intuito de vender a casa familiar. A viagem que empreendem juntos é simultaneamente um mergulho no passado, uma metáfora da memória – com os seus meandros, truques e magias – e um rompimento com esse mesmo passado uma vez que esses momentos são aproveitados pelo jovem Gabo para assumir o seu desejo de ser escritor, contrariando assim as intenções dos pais que querem que ele acabe o curso e se dedique a algo mais sóbrio e sólido do que a vida insegura de ficcionista.Com a mãe embarca num barco a vapor, única forma de ir de Barranquilla a Aracataca. A travessia é desconfortável e acidentada. A senhora aguenta tudo com estoicismo, o jovem lê Faulkner e observa a paisagem, como se se tratasse de um filme sobre si próprio. Pouco antes de chegar, repara no nome de uma das antigas plantações : Macondo, escrito no portal enferrujado. É assim que surge o universo de “Cem Anos de Solidão”, como se emergisse do pântano da sua própria arqueologia emocional e sentimental.
Por alguma razão Garcia Márquez escolheu esta viagem inconsequente – a casa está em estado calamitoso, os inquilinos são pobres, o negócio não se concretiza - para dar início às suas memórias. Foi a partir desse episódio quando ele tinha 23 anos e se arrastava pelos cafés sem saber realmente qual seria o seu destino que tomou como definitiva a sua missão de escritor. Passaram-se dezassete anos até ao sucesso de “Cem Anos de Solidão” – antes, ainda escreveu “Ninguém Fala ao Coronel” (1958) e “Os Funerais da Mamã Grande (1959) – mas a semente já se inscrevera definitivamente na sua personalidade. Se a viagem com a mãe a Aracataca lhe serve de pretexto para contar a história da família e as suas raízes, o tempo que se segue em Barranquilla é um manancial de referências ao universo jornalístico e intelectual, um espaço fervilhante de ideias, de cruzamento e de encontros. Garcia Márquez descreve com vivacidade o ambiente agitado das redacções dos jornais, as “missões impossíveis” para as quais era enviado sem aviso prévio, as misérias e deslumbramentos, o receio de falhar e os golpes de sorte, as viagens pelo país em aviões bons para sucata, o tempo passado a escrever e a ler, a solidão e a camaradagem, as amizades e os amores, a boémia, a falta de recursos temperada pelo bom humor, as reuniões na Libreria Mundo e as noitadas pelas “casas de bêbados e casas de perdição”. Nesse ambiente desfilam figuras de vagabundos , prostitutas, ladrões, pintores, escritores, intelectuais e bandidos que povoam uma espécie de país dentro do país, um mundo duramente realista e simultaneamente romântico e em certos casos, surreal. Foi assim que ficamos a saber como Garcia Márquez criou amizades para toda a vida, cumplicidades profundas e amores perenes. Ao longo de duzentas e muitas páginas o autor fala entusiasticamente desse tempo de jornalista, durante o qual correu jornais variados, fundou revistas efémeras, foi crítico de cinema e fez a cobertura dos mais variados acontecimentos, de escândalos políticos a dramas sociais. Este volume acaba com a sua primeira viagem para fora do seu país, ao serviço de El Espectador para cobrir a Conferência de Genebra, em 1955. O que era suposto ser uma estadia de duas semanas transformou-se num exílio de três anos em vários países da Europa. Em 1958 voltará a Barranquilla para casar com Mercedes Barcha. Mas esta parte da história ficará para um próximo volume. 

Nota: 
“A vida não é o que se vive mas sim o que se recorda e a forma como essa recordação é contada” afirma o autor no início das suas memórias. Esta aparente confusão reflecte-se em cada episódio das suas memórias e ajudou a criar a sua própria figura lendária para o resto do mundo. Um episódio estranho aconteceu recentemente. Em 1999, foi-lhe diagnosticado e tratado um cancro linfático e as notícias sobre o seu estado de saúde espalharam-se pelo mundo. Em Maio de 2000 apareceu um poema, supostamente de sua autoria, intitulado “La Marioneta” que começou a circular na Internet e foi considerado como uma espécie de adeus à vida por parte do escritor. O poema, bastante mau foi finalmente atribuído a um tal Johnny Welch, ventriloquista de profissão que admitiu ser o autor. Garcia Márquez não fez qualquer comentário e continuou tranquilamente a viver e a escrever.

 

 

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publicado às 15:36



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