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por Oldfox, em 10.12.15

Alexandre o Grande por Laurent Gaudé em "A Última Viagem"

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Todos os caminhos vão dar a Babilónia

 

Alexandre o Grande, o visionário que decidiu conquistar o mundo, modelo para Genghis Khan e Napoleão, entre outros de sinistra memória, foi um fenómeno de direito próprio. Aos vinte anos, quando se sentou no trono da Macedónia, era já um prodígio nas artes da guerra e um astuto pensador, em parte graças aos ensinamentos do seu mestre, Aristóteles. Entre 334 e 324 a.C. , o seu vigoroso exército avançou para Leste como uma potente e bem oleada máquina, varreu todos os oponentes, arrasou cidades, saqueou e pilhou, chegando tão longe quanto o subcontinente indiano, onde as tropas se recusaram a avançar mais. Por alturas do seu trigésimo aniversário, Alexandre, político implacável, estratega brilhante, amante de mulheres e de homens com igual fervor, generoso em extremo e ferozmente cruel – executou inúmeros amigos e inimigos – reinava como senhor absoluto num Império que aproximou a Europa da Ásia e transformou a História para sempre. Na faustosa cidade persa de Susa, em 324 a.C., ordenou o casamento em massa de macedónios com princesas persas e o próprio Alexandre casou com Stateira, a filha do rei Darius III, tendo oferecido a irmã desta, Dripetis, ao seu amigo mais próximo, Hefestião. Esta manobra diplomática suscitou críticas por parte dos que achavam que Alexandre - que adoptou também o título oriental de "rei dos reis" - se estava a tornar demasiado indulgente e sensível ao luxo e à licenciosidade. Os textos da época e a "biografia" de Plutarco apontam para um gosto cada vez mais acentuado pelo hedonismo e para um afrouxamento dos instintos guerreiros. A verdade é que Alexandre, aos trinta e dois anos, no apogeu da sua glória, morreu subitamente em Babilónia. 

É a partir daqui, mais exactamente durante um banquete orgiástico no palácio de Nabucodonosor, que se desenrola a narrativa de Laurent Gaudé (n.1972, Paris). O poderoso Alexandre, que nunca perdera uma batalha, que sobrevivera a todas as provações e ferimentos, que se considera invencível, (um semi-deus como o seu herói, Aquiles), tomba, preso de dores excruciantes, como se atingido por um raio, enquanto a música toca e todos riem, dançam e bebem. Alexandre é levado para os seus aposentos e agoniza, à medida que a notícia se espalha e, dos quatro cantos do Império, a multidão converge para Babilónia, velando e suspirando, à espera do trágico desenlace.

Alexandre "não sabe morrer", assim se queixa a voz fantasmagórica que persegue e ecoa pelos corredores do palácio. O grande senhor da guerra não cai, como o herói da Ilíada, no campo sagrado da batalha mas definha em febres pestíferas e em delírios enquanto as carpideiras, à sua cabeceira, se revezam para lhe auscultar o coração e se aprontam para o chorar mal ele exale o último sopro.

Uma histeria colectiva – " de que viveremos, depois de ele morrer?" – percorre os súbditos, os generais, os amigos de infância outrora fiéis, que imediatamente se dilaceram entre si, como abutres disputando os restos do seu senhor. A história do cortejo funerário que se agiganta para levar os restos de Alexandre de volta a "casa", para que a urna seja depositada nas mãos da mãe, Olímpia, e se desloca ao longo de dois anos sem nunca chegar à Macedónia, é recriado vividamente por Gaudé.

"A Última Viagem" (" Pour Seul Cortège", no original) é um exercício sobre o poder e a morte, numa linguagem ricamente exuberante, talhada a golpes de cutelo e onde não existem longas meditações filosóficas nem reflexões conflituosas mas sim cenas sucessivas que alternam entre a calma e o turbilhão, num ritmo encantatório que serve à perfeição o carácter mítico (e místico) que envolve esta estranha travessia. O estribilho entoado pela multidão - "a quem pertences, Alexandre?" - serve de mote para esta bizarra procissão, que vira as costas, funestamente, ao sol nascente, ladeando o corpo embalsamado e enclausurado no seu pesado casulo de oiro maciço, pungentemente chorado pelas carpideiras, disputado por senhores da guerra e desviado como um troféu. Gaudé convoca poderosamente os sentidos numa toada de diferentes vozes que vão descrevendo as penosas marchas, as incursões dos exércitos rivais, o ruído tremendo das armas, o tombar dos cavalos, os gritos de agonia e o cheiro a sangue e a cadáveres. Da glória imperial, da doçura dos cânticos nos jardins de Babilónia, dos tesouros acumulados na campanha, vai restando cada vez menos, como faz notar a leal Dripetis, figura principal e trágica musa desta história.

Não será demais recordar que Laurent Gaudé é um homem do Teatro, algo que sobressai na sua prosa, ao compor "quadros" dramáticos referentes a cada situação. E se o autor mistura aventureiros e bandidos no famoso "O Sol dos Scorta" (prémio Goncourt, 2004), em que a acção acompanha a saga de uma família "amaldiçoada", aqui, retoma a ideia dos grandes feitos e das grandes misérias, nos destinos de seres de excepção. Um adivinho indiano predisse que Alexandre não deveria entrar em Babilónia e outro homem sábio afirmou que o lugar onde o seu corpo descansasse seria o "mais próspero do universo". Ptolomeu, seu companheiro de armas, enterrou-o em Alexandria, para fazer cumprir a profecia, mas os saques que se sucederam fizeram com que os restos mortais do maior guerreiro de todos os tempos desaparecessem sem deixar rasto. A saga de Alexandre, um tema infinito, tornou-se mais duradoura do que a glória efémera do senhor do mundo, com o seu cavalo Bucéfalo e a fronte coroada de oiro.  

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publicado às 13:02


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