Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Pieter Bruegel, o Velho: "Censo em Belém", 1566
Hoje, dia 6 de Fevereiro, 2014, às 18:30h, na Biblioteca de Cascais, vamos conversar sobre Bruegel e sobre a sua obra. O pretexto é o hilariante e inteligentíssimo romance do dramaturgo Michael Fryan, intitulado em português "Golpe de Mestre" e, em inglês, "Headlong". Bruegel viveu uma época conturbada, quando os Países Baixos pertenciam à coroa espanhola e a Inquisição fazia as suas habituais razias. Reforma, Contra-Reforma, a pesada lei dos fanáticos, chacinas e guerras, ocupações e opressão. No meio de tudo isto, a Arte florescia. Mas quantos mistérios e charadas se escondiam em cenas aparentemente banais, nos quadros do mestre Bruegel (ou Brueghel), o Velho? E qual o preço a pagar para os descobrir?
Uma bem arquitectada trama em torno de um professor de Filosofia que pensa ter descoberto um Bruegel, perdido na noite dos tempos, e a verdadeira "febre" que se apodera dele para conseguir deitar a mão ao precioso quadro, que ele considera estar a perder-se, na posse de alguém que "o não merece".
De notar que a obra de Bruegel tem suscitado um interesse inusitado por parte de romancistas e de poetas - para além de historiadores de arte e outros peritos, obviamente. Uma das mais famosas referências é o poema de W. H. Auden, escrito depois de uma visita ao Museu de Belas Artes, em Bruxelas, onde o poeta contemplou a obra de Brueghel. A sua reflexão prende-se com a ideia de que o sofrimento de alguns pode passar despercebido a muitos , que continuam placidamente nas suas tarefas rotineiras. Mas o pintor, com o seu olhar que tudo percebe e tudo revela, inclui o drama nos seus quadros, drama esse que , como toda a gente sabe, está sempre presente e se desenrola paralelamente à folia, à domesticidade, aos esforços do quotidiano.
MUSÉE DES BEAUX ARTS - W. H. Auden (1907-1973), Poeta e ensaísta americano, nascido em Inglaterra.
About suffering they were never wrong,
The Old Masters; how well they understood
Its human position; how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.
In Breughel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water; and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
had somewhere to get to and sailed calmly on.
Nota: A edição portuguesa do livro está, infelizmente, esgotada. É pena: seria uma leitura bem interessante para este momento em que se discute, em Portugal, o destino de obras de arte, as vicissitudes do património artístico.