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por Oldfox, em 19.04.17

Daphne du Maurier

 

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A última romântica

 

Daphne du Maurier, considerada justamente como uma das autoras mais populares do século XX, ocupa um espaço particular no universo da Literatura. Chamaram-lhe a “última romântica” porque, num século em que se acabou de vez com a inocência, ela escreveu sobre a aventura e as paixões ilimitadas, com grande elegância, inteligência e destreza. Conhecida e reconhecida por uma multidão de admiradores em todo o mundo foi, no seu tempo, e apesar da fama, uma mulher com grande sentido de privacidade, misteriosa e dada a sentimentos ambíguos. Grande criadora de ambientes de suspense e de teias psicológicas complicadas, não é de estranhar que o grande mestre do cinema Alfred Hitchcock se tenha deixado encantar pelas tramas, tanto do romance “Rebecca”, publicado em 1938 e filmado em 1940 (Orson Welles também fez uma adaptação para a rádio, no mesmo ano da publicação do livro) como pela estranheza do conto “Os Pássaros”, transformando-os em clássicos de terror.

 

Daphne nasceu a 13 de Maio de 1907, em Londres, a segunda de três irmãs, e passou os primeiros anos no ambiente fervilhante e sofisticado do teatro e da literatura. Era neta do célebre Georges Du Maurier, caricaturista da revista Punch e autor de peças de teatro, das quais, “Trilby “(1894), hoje em dia esquecida, teve um sucesso tão retumbante na altura que desencadeou uma guerra entre escritores que tentavam a sua sorte no meio altamente mediático e extremamente mundano do teatro londrino. (Oscar Wilde – que Du Maurier criticava – e Henry James – de quem era grande amigo – foram alguns dos afectados.)

Os pais de Daphne formavam um casal famoso e constavam amiúde das colunas sociais. A mãe, Muriel Beaumont, era uma actriz de grande beleza – nessa altura os actores e actrizes de teatro correspondiam aos de cinema, hoje em dia – e o pai, Sir Gerald du Maurier, tornou-se um ídolo das matinées, tão atraente e sofisticado que deu origem a uma marca de cigarros quando estes eram, ainda, um sinal de elegância.

Gerald tinha uma irmã, Sylvia Llewelyn-Davies, outra beldade que captou a atenção de um amigo da casa, o escritor J.M. Barrie, que se inspirou nos filhos de Sylvia para escrever “Peter Pan”. Outros visitantes assíduos incluíam os escritores Henry James e Edgar Wallace, artistas, dramaturgos e produtores. Gerald era também actor e produtor teatral e, em sua casa, cruzavam-se os maiores nomes das letras e da sociedade inglesa. O círculo de amigos incluía estrelas de teatro e cinema como Sir John Gielgud, Douglas Fairbanks Jr. e Gertrude Lawrence considerada, na altura, a mais importante actriz de music – hall, com fama e proveito estabelecidos, dos dois lados do Atlântico.

Mais tarde, com o aparecimento da biografia da autoria de Margaret Foster ("Daphne du Maurier. The Secret Life”) foi explorada a ideia que Daphne e Gertrude teriam vivido um tórrido romance de amor, um entre outros de carácter homossexual que a escritora manteve ao longo da vida e aos quais chamava “as suas tendências venezianas”. Foi ainda Foster quem escreveu sobre a obsessão de Daphne pelo pai, o que teria motivado a sua posterior dificuldade em relacionar-se com os homens. Mas o seu verdadeiro grande amor, aquele que a levou a escrever, foi por uma casa na Cornualha, a Menabilly, que, em “Rebecca”, se chamou Manderley.

 

A família du Maurier orgulhava-se dos seus pergaminhos: para além da ascendência francesa, uma das suas antepassadas, Mary Anne Clarke, teria sido amante do Duque de York, filho do rei George III e uma das suas filhas casou com um tal Louis-Mathurin Busson du Maurier. Estes relatos empolgantes  forneceram a Daphne, que gostava muito de História, material suficiente para escrever “The Glass Blowers” (1963) sobre a família Busson, “Gerald” (1934) sobre o seu próprio pai e “The House in the Strand” sobre a família dos donos da casa que ocupou posteriormente, Kilmarth, que pertencera a um baronete chamado Roger Kylman, e que datava do século XIV.

 

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A Família. Daphne com o marido, filhas e filho.

 

Daphne cresceu num meio social e cultural privilegiado. Em pequena, era mimada pelo pai que a encorajava, inclusive quando ela decidiu que era um rapaz, cortou o cabelo rente e anunciou que passava a chamar - se “Eric Avon”. As suas excentricidades não impediram que tivesse uma educação cuidada, em bons colégios em Londres, Meudon e Paris, e solidificada por múltiplas viagens. Nas suas memórias “Growing Pains” conta a história – entre muitas outras – de um apaixonado que a perseguiu até à Suécia. Para lhe escapar, ela despiu-se completamente e mergulhou na água gelada de um fiorde, para ser salva pelo mesmo galante enamorado que a tentou aquecer, oferecendo-lhe uma manta de peles. A jovem recusou e, nua, pediu-lhe antes uma adaga para cravar no peito. Este tipo de situações, fruto do seu temperamento apaixonado e dramático foi transposto para a sua escrita, onde abundam  homens aventureiros, piratas, flibusteiros e contrabandistas, perseguidores de jovens perturbadas e em perigo, mulheres belas e valentes.

Nos anos 20 os pais de Daphne adquiriram uma casa de férias na costa, junto a Fowey, e a jovem ganhou o gosto pelo mar e pela paisagem selvagem, longe do bulício de Londres. Aqueles lugares excitavam a sua imaginação e a escrita passou a ser a forma de melhor se expressar. Foi em Fowey que começou a escrever contos. O seu primeiro romance, “The Loving Spirit”, foi publicado em 1931 por um tio que era dono de uma editora. A recepção a esta história não podia ser mais entusiasta e o livro tornou-se tão popular que um jovem oficial, o Major Tommy (“Boy”) Browning, depois de o ler, resolveu que tinha de conhecer a autora. Apareceu em Fowley no seu barco à vela e, durante um ano, cortejou Daphne de longe, teimosamente. Acabaram por se conhecer e casaram em Julho de 1932. Por essa altura já a autora tinha consolidado a sua fama, principalmente graças a “Jamaica Inn”, um romance de aventuras que fora inspirada por um dia que passara numa estalagem do mesmo nome. (Entretanto, Alfred Hitchcock reparara no potencial da escrita de du Maurier e rapidamente transformou esta terrível história de crimes e suspense, em mais um sucesso, em 1936.)

Durante os primeiros dez anos de casada, Daphne fortaleceu a sua paixão pela Cornualha, essa costa da Grã-Bretanha virada para o Atlântico, cheia de brumas, mistério e beleza. Teve um filho e duas filhas e, em 1943, em plena Guerra, a família mudou -se definitivamente para lá. Num dos seus passeios, Daphne e o marido tinham descoberto Menabilly, uma mansão desabitada do século XVII que imediatamente captou a atenção da escritora. Pertencia a uma família aristocrática, os Rasleigh que concordaram em alugá-la por um período de 25 anos. Foi Menabilly – que se tornou uma paixão e uma obsessão para Daphne – a inspiração para a casa “assombrada” de “Rebecca”, talvez um dos livros mais célebres de sempre com a sua frase inicial: “Na noite passada sonhei que tinha voltado a Manderley”…

“Rebecca” é considerado como o digno seguidor do romance gótico das irmãs Brontë, tendo sido influenciado grandemente por “Jane Eyre” e contendo todos os ingredientes para uma história palpitante: uma casa misteriosa e assombrada, violência, crime, um vilão, muita paixão física, um fogo devastador, uma paisagem assustadora e encantatória e a versão século XX do tema de “a louca no sótão”. A dívida para com as Brontë, totalmente assumida e reconhecida pela autora, levou-a a escrever uma biografia do amaldiçoado elemento masculino da família, “Branwell Brontë“.

 

Em 1965, du Maurier entrou numa fase mais dura da sua vida. O marido morreu e, quatro anos depois, o prazo do arrendamento de Menabilly expirou, forçando-a a deixar a sua casa bem amada. Foi viver para perto, para Kilmarth, onde passou o resto dos seus dias. Nesse mesmo ano, como que para compensar a sua perda, foi feita Dama do Império Britânico.

A popularidade dos seus romances e contos – que ainda hoje se lêem com interesse e emoção – foi aumentando ao longo dos anos, um fenómeno que se deve ao facto de a autora ter sabido trabalhar diversos géneros de ficção: o romance propriamente dito com influências do estilo gótico, o thriller, o género “terror”, o drama psicológico, a história de aventuras, etc. com enorme mestria.

Daphne foi uma leitora ávida desde muito pequena e é possível discernir, na sua obra, a influência de autores como Walter Scott, W.M. Thackeray, as Brontë, Oscar Wilde, R.L. Stevenson, Katherine Mansfield, Guy de Maupassant e Somerset Maugham. Era especialmente dotada para criar atmosferas e para mostrar a evolução de paixões extremadas mas muito humanas.

Foi ela, com a ajuda de Hitchcock, que instaurou a sensação do medo inexplicável. Muitos dos mistérios no centro dos seus romances ficam por esclarecer. Ainda hoje, quem lê “A Prima Raquel” debate-se com a personalidade da heroína, “Os Pássaros” continuam a representar um medo antigo, uma ameaça não explicável da toda-poderosa Natureza e “Don’t Look Now”, um romance sobre a morte de uma criança que continua a assombrar os pais em Veneza, levanta a questão da dor insustentável de quem perde um filho.

 

Em 1989, Daphne morreu na sua bem amada Cornualha, onde gostava de estar só com os seus cães, rodeada de memórias dos tempos de felicidade, quando Menabily /Manderley ainda era a sua casa e as vagas e as brumas acompanhavam os seus passeios solitários. De acordo com o seu desejo, as suas cinzas foram espalhadas ao longo da costa.

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Gertrude Lawrence com Yull Brynner

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publicado às 17:32


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