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por Oldfox, em 25.02.15

JOYCE CAROL OATES, "A Filha do Coveiro"

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Sonhando a América

Os primeiros colonos que desembarcaram nas costas americanas, ao deixarem para trás um passado de tirania, perseguições religiosas, estigmas sociais e, muitas vezes, penas judiciais – dívidas, assassinatos, crimes de toda a espécie – procuravam um futuro, numa terra idealmente virgem e não contaminada pela História. A grande epopeia americana, “cantada” pelos seus autores mais ilustres, assentou nesse momento único (repetido ao longo de séculos) que teve sempre o peso de um baptismo ritual e expurgatório. Impulsionados pela energia da conquista de espaço e pelo incremento posterior do poderio industrial, científico e tecnológico, os “pais ( e mães) fundadores” adquiriam, assim, uma esperança renovadora nesse universo de “liberdade, igualdade, fraternidade” e, principalmente, de oportunidades. A saga da exploração territorial da “fronteira” selvagem, com os seus rasgos de heroísmo e resiliência, devidamente recompensados por novas vidas esplendorosas, foram enaltecidos, na sua vertente espiritual, pelo poeta Ralph Waldo Emerson no ensaio de 1844, “Nature” e em incontáveis versos, baladas, folhetins e músicas que constituem, verdadeiramente, a base da cultura popular americana. E se Henry James e Edith Wharton regressaram à Europa – para eles, ainda, a matriz civilizacional – e tiveram o cuidado de apontar a dedo uma certa podridão subterrânea na sociedade afluente do seu País, foi preciso chegar a autores como por exemplo Hunter S. Thomson  e Cormac McCarthy – por sua vez discípulo de William Faulkner e de Carson McCullers – para conhecer todo o horror da tomada, pela força, do Novo Mundo, despido de floreados heróicos – as boas intenções de alcançar a fama e o sucesso pelo empenho e o trabalho árduo dão lugar a fórmulas bem mais cruas e cínicas – e da ilusão das quimeras do ouro da Califórnia ou da prata do Nevada.

Em “A Filha do Coveiro” Joyce Carol Oates recupera todos estes mitos e, tal como por exemplo McCarthy em “Meridiano de Sangue”, desenha uma epopeia onde, com a frieza lírica que a caracteriza, destrói e estilhaça o famoso “sonho americano”, transformando-o num autêntico pesadelo em que, para além da óbvia distorção perversa da noção de prodigalidade e hospitalidade do império americano, não perde de vista os seus temas favoritos: a reinvenção da identidade, o estigma dos preconceitos, a maldade dos ignorantes, o preço a pagar pela duplicidade e pela mentira.

Centrado nas agruras suportadas pela família Schwart (corruptela do germânico “schwarz”, negro), imigrantes alemães empurrados pelo sopro férreo e devastador da “besta nazi”, toda a acção do romance gira em torno da figura de Rebecca Schwart – baseada na avó da autora – uma jovem mãe a trabalhar duramente numa fábrica, algures no interior da América. Um dia, no Outono de 1959, quando regressa a casa por caminhos desertos, é abordada por um homem que a confunde com uma certa Hazel Jones. Vinte anos mais tarde saber-se-á que o seu perseguidor é um assassino em série; no entanto, esse encontro irá determinar uma mudança radical na sua vida. Bravia, esquiva e corajosa (traz sempre no bolso uma barra de metal com uma ponta afiada), Rebecca escapa ilesa e Oates volta atrás no tempo para relatar a sua trágica história. Os Schwart, juntamente com outros milhares de refugiados, tinham aportado em Nova Iorque, em 1936. A mãe, Anna, dá à luz Rebecca ainda no barco, por entre a imundície e o desconforto, após dias de viagem tortuosa. O pai, Jacob, antigo professor do liceu, vê-se forçado a aceitar (e a agradecer) um emprego como coveiro em Milburn, uma povoação recôndita e sombria; Anna nunca recupera do parto e do choque do exílio: os irmãos de Rebecca, Herschel e Gus, obrigados a ajudar o pai na sua penosa e humilhante tarefa – Jacob tem de tratar das campas daqueles que o desprezam e à sua família – são marginalizados, perseguidos e acabam por desaparecer na vastidão do território americano. Resta Rebecca que escapa à morte, primeiro ao nascer (“queres que a sufoque?” pergunta Jacob) e depois, aos treze anos, no dia em que o pai agarra numa caçadeira, dá dois tiros em Anna e se suicida de seguida não sem, antes, ter apontado à cabeça da filha. Rebecca enganará a morte mais uma vez quando foge do suposto marido, o “encantador” e sexualmente convidativo Niles Tignor, bom companheiro de bebida e poderoso garanhão, conhecido em todo o lado pelas suas maneiras afáveis e temido pela sua violência. Tignor, com o seu brutal nome viking, casa com Rebecca quando ela tem dezassete anos e contribui para a criação de uma nova personagem – a de “esposa” dócil e mãe – na sua viagem de permanente reinvenção, de tentativa de deixar para trás o cheiro húmido da casa de pedra da infância, o fedor da terra do cemitério, a pobreza e a estranheza dos outros. Niles arrebata -a com a sua falsa alegria e o seu gosto pela aventura mas é um alcoólico violento e ciumento para quem Rebecca é um objecto sexual exótico que o enlouquece (trata-a por “minha judiazinha, minha cigana”) mas que ele domina e despreza. (Quando Rebecca perde o primeiro filho ele limita-se a dizer alegremente, “ deixa lá, fazemos outro!”). Rebecca fugirá dele depois de ser, mais uma vez, brutalmente espancada e ameaçada de morte, iniciando uma louca viagem com o filho Niles Jr – que ela passa a chamar Zacharias, um nome bíblico que “compensa”, de certa forma, a sua passagem de Rebecca para Hazel Jones, este sim, um bom, caseiro e encantador nome americano. Na sua persona Hazel Jones procurará muitas vidas diferentes, muitos empregos e muitos lugares até encontrar Gallagher um músico, filho de um milionário, que a toma sob sua protecção. No final, em 1999, Rebecca/Hazel, cansada e doente procura algo que a ligue ao passado e às suas raízes, entrando em contacto com uma prima, Freyda, que ela supunha morta. As cartas trocadas entre ambas fecham o livro, deixando um sinal inquietante: a assinatura da prima na última missiva é uma versão tosca da suástica, cuja sombra perseguiu sempre a “filha do coveiro”, desse emigrante revoltado, forçado a sair da sua terra para ficar preso a uma América hostil onde é confundido com os seus próprios carrascos – chamam-lhe boche e as cruzes gamadas são inscritas nas paredes do cemitério.

Mesmo abusada, espancada, humilhada e até amada, Rebecca /Hazel é uma sobrevivente que rasga as trevas da sua existência com arrojo e determinação. As heroínas de Joyce Carol Oates são, na maior parte da sua obra, intrépidas e solitárias, a raiar a delinquência – ou mesmo criminosas – crianças, adolescentes e mulheres com profundas marcas físicas, psicológicas e morais, resistentes a intempéries de toda a ordem. Embora sejam vítimas de uma sociedade onde a violência serve de base de todas as relações, tanto familiares como sociais, não se deixam abater e não há nelas a mais pequena réstia de auto-piedade. Como pistoleiras vingadoras de um antigo “western” nada as faz vergar ou poisar as armas, num universo hostil, preconceituoso e desregrado. A escrita avassaladora de Oates cria uma espécie de febre que parece apoderar-se dos seus personagens e escapar-se numa torrente de palavras inspiradas que nos recorda a exaltação de outra grande escritora, Flannery O’Connor. No seu poema “Dreaming América” (1975) Oates escreve: “Onde cavalos pastavam num sonho sem história/ esta noite, uma jovem de treze anos devaneia/ colada ao vidro da montra da  Levitz's Record Shop/ Passamos por ela, apressados. Desaparecemos/ E regressamos. “

A Filha do Coveiro, Joyce Carol Oates, Ed. Sextante, Tradução de Susana Baeta e Miguel Castro Caldas

 

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publicado às 15:32



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