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por Oldfox, em 14.08.13

Crónicas III

 

JACK KEROUAC - A GERAÇÃO BEAT

 

Em 1956, Jack Kerouac estava a atravessar uma das suas fases de depressão. Sem dinheiro, sem mulher e com“On The Road” (“Pela Estrada Fora”) por publicar, o escritor decidiu deixar Nova Iorque e partir em busca de um nirvana que ele ligava estreitamente à ideia de liberdade. Aceitou um lugar de vigilante de incêndios nas montanhas North Cascades e instalou-se no Desolation Peak, numa cabine que, desde a sua morte, se tornou um lugar de peregrinação.Passou 63 dias isolado “à procura de Deus”, tendo apenas como companhia a vista espectacular sobre as montanhas com os seus picos cobertos de neve e vales densos e vertiginosos. Kerouac, que era um verdadeiro citadino, veio para este lugar distante, espartano e rigoroso por indicação dos seus amigos, os poetas Gary Snyder  e Philip Whalen que já tinham passado algum tempo numa outra cabine. Kerouac andava desesperado por escrever em paz e queria seguir o exemplo de Thoreau e de Emerson: viver em solidão com o mínimo para sobreviver, em estreita convivência com a Natureza, cortando todos os laços, despojando-se de tudo. Jack estava no auge do seu período budista e era fortemente influenciado pelo poeta chinês da dinastia Tang, Han Shan. Em Desolation Peak, leu a escrituras Prajnaparamita diariamente e coligiu material para os seus dois livros “The Dharma Bums” e “Desolation Angels”.

Hoje em dia é difícil passar tanto tempo isolado, mesmo nesse lugar longínquo. Visitantes do parque e principalmente admiradores de Kerouac arrastam-se até lá e deixam mensagens no “log book” do abrigo florestal. Mas quando Jack abandonou o local, depois de mais de dois meses sem ter visto vivalma, estava convencido de que a sua vida ia mudar e de que, apesar de estar já com 34 anos, ainda teria hipótese de escrever as suas obras-primas tal como Dostoiévsky, que ele admirava com exaltação.

 

De regresso à cidade, a vida retomou o seu curso. Em 1957, Grenwich Village em Nova Iorque era o centro de um mundo em transformação. Lugares como o bar “Johnny Romero” serviam de pouso a escritores e artistas que criavam uma atmosfera de boémia e cumplicidade. Também apareciam os “curiosos” para apreciarem de perto tão estranhas personagens e confirmar os rumores de que aí “era onde as raparigas brancas tinham encontros com rapazes negros”.  Desde 1947, e num período que se estendeu até 1949, o apartamento de Gil Evans na West 55th Street foi o ponto de encontro de grandes músicos. Com eles, a partir deles, emanavam ideias postas em prática por nomes tão míticos como John Coltrane e Miles Davis. Dois dos grupos mais importantes, formados respectivamente em 1951 e 1952, o Modern Jazz Quartet e o quarteto de Gerry Mulligan (que lançou Chet Baker, por exemplo) foram o resultado dos encontros no apartamento de Evans. “A Love Supreme” e “Kind of Blue” os clássicos celestiais, respectivamente de Coltrane e Miles Davies, eram a expressão de uma procura apaixonada de algo transcendente, de uma bem-aventurança.O Jazz na sua versão “cool” tinha tomado conta das ruas enquanto a heroína “agarrava” a cultura beatnick.É curioso recordar que esta droga fora introduzida na América pela companhia farmacêutica Bayer e vendida como xarope para a tosse, tendo sido difundida livremente ao longo de vinte anos até aproximadamente o fim da primeira Grande Guerra. Ao tornar-se ilegal, a sua distribuição ficou a cargo de mafiosos, dos quais o mais famoso foi Lucky Luciano. Quando este foi finalmente deportado para a Sicília, nos finais dos anos trinta, a heroína era já a droga de eleição entre músicos e artistas.

No pós Segunda Grande Guerra, a vida levava outros rumos. Todos queriam esquecer o conflito, lançando-se numa busca de algo que parecia para sempre inatingível mas impossível de evitar como objectivo.A arte fazia-se na rua, nos bares, nos apartamentos de amigos e cúmplices. Era uma existência livre de restrições morais que, até então, tinham pautado a sociedade americana. Depois de todos os horrores, era difícil acreditar na existência do paraíso para além das drogas, do álcool ou do esquecimento, que a vagabundagem conferia.

Há quem recorde Kerouac, exactamente por essa altura, a pagar bebidas aos amigos nesses mesmos lugares, tirando dinheiro à mãos cheias de um cinto porta-notas, onde guardava o total dos 1000 dólares que a Viking Press lhe entregara como adiantamento pelo seu famoso “On the Road”. Esta história que ele tinha levado seis penosos anos a completar e que passara outro tanto tempo nas gavetas, rebentou como uma bomba no meio literário, com a crítica entusiástica do The New York Times na qual “On the Road” era descrito como sendo “uma autêntica obra de arte” , “uma obra mestra”, o símbolo da “beat generation” em contraponto com a “lost generation” dos anos vinte e de “The Sun Also Rises”de Hemingway. O lançamento de “On the Road” foi um dos grandes golpes publicitários da época, engendrado por um grupo de pessoas que conhecia bem a juventude da época e sabia que esta estava sedenta de algo com que se identificasse , afastando-se definitivamente do puritanismo e do idealizado “amerian way of life” que florescera durante e logo após a Segunda Grande Guerra. Não era impunemente que, na Europa,o movimento existencialista e as modas que lhe estavam circunscritas se desenvolviam exponencialmente. Uma nova geração sem raízes emergia dos escombros de uma sociedade desfeita, desejosa de cortar amarras, interessada em fumar marijuana e guiar até à Califórnia, à procura de bons momentos. Aproximavam-se os anos sessenta e a revolução sexual, o Flower Power e as manifestações pacifistas perfilavam-se no horizonte.

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publicado às 13:08


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