Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



por Oldfox, em 16.09.13

Edição portuguesa de HENRIQUE IV de William Shakespeare

"Estou velho, estou velho"

Falstaff em Henrique IV

Acto II, Cena 4, Linha 1562


Se há alguma coisa que me dá felicidade – para além do óbvio – é a leitura do velho William Shakespeare. É melhor do que qualquer droga – somos atirados para um mundo vasto e tão impetuoso que mal podemos parar para respirar – e mais interessante do que qualquer outra actividade. As personagens "vivem" em todo o seu esplendor junto de nós, tão perto que lhes sentimos o bafo doce ou acre, sulfuroso ou perfumado. Não há emoção, sentimento, pulsão, desvario que lhes escape, dos mais nobres aos mais mesquinhos. Hegel observou que as personagens de Shakespeare são " livres artistas de si próprios" e essa dimensão confere-lhes um atractivo e uma sedução avassaladoras. Não há gente perfeita, heróis impolutos, virgens imaculadas, intenções óbvias. William Shakespeare, o génio laico, o criador infindável, também nos insere na História, esse longo caudal, esse magma de onde todos emergimos. As leituras são viagens interplanetárias porque cada peça revela o território de um cosmos. E quando surge uma colecção como esta, fico espantada por não ver páginas de jornais e revistas, bem como longos minutos televisivos a dedicarem-lhe todo o tempo e a análise que merece.

Trata-se da colecção "Projecto Shakespeare" que resulta de um protocolo estabelecido entre os membros do grupo de investigação Shakespeare e o Cânone Inglês, do CETAPS – Centre for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies (pólo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto), e a editora Relógio D' Água e tem como objectivo a publicação da tradução integral da obra do bardo inglês. E, para começar, aqui fica a indicação da tradução da peça histórica HENRIQUE IV – 1ª e 2ª partes – pelo professor Gualter Cunha que também escreve um valioso prefácio.

"Henrique IV" supõe-se que foi escrita (1ª parte) cerca de 1597 – a 2ª parte terá ficado pronta cerca de 1599 – e cobre o tempo histórico das lutas pelo poder entre 1402 e 1403. Foi sempre uma peça extremamente popular e cuidadosamente estudada – uma nota especial para Samuel Johnson.  Nela surgem dois dos emblemáticos seres do universo shakespereano, o " príncipe Hal (Henry)" – futuro rei Henrique V – e a grandiosa e complexa figura de Falstaff – esse nobre vaidoso e obeso, cobarde e gabarolas que arrasta o príncipe para as suas eternas complicações – e que, só por si, "preenche" muito satisfatoriamente o nosso imaginário. Mas é preciso ler com atenção esta magnífica história onde afectos e companheirismo se confundem e se cruzam com os embates brutais pelo poder.

Esta edição é de Julho, 2013, Lisboa.

 

Falstaff e o Príncipe Hal

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:45


Um blogue da literatura, dos livros, dos leitores, dos editores, dos livreiros, dos alfarrabistas, dos desesperados, dos felizes e do que mais aprouver.

Mais sobre mim

foto do autor